Brasília (DF) – Em 1974, navegar significava cruzar semanas de mar aberto sem avistar um único pedaço de lixo. Quatro décadas e quatro voltas ao mundo depois, a velejadora e ativista Heloísa Schürmann não precisa ler relatórios científicos para saber que o cenário mudou de forma drástica. O desabafo da navegadora deu o tom realista à sessão especial realizada nesta segunda-feira (8), onde cientistas, ativistas e gestores públicos cobraram medidas urgentes para frear a degradação das águas brasileiras.
A solenidade, capitaneada pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS), colocou em perspectiva o peso econômico desse ecossistema. Trad ponderou que, caso o oceano fosse uma nação, sua economia seria a quinta maior do planeta. Essa engrenagem, que une exploração de recursos e atividades costeiras, depende diretamente da preservação. Para o senador, o avanço financeiro perde o sentido se atropelar a estabilidade ecológica.
Pressão por leis rígidas e cooperação
No centro do debate, a representante do Ministério do Meio Ambiente, Anna Flávia de Senna Franco, destacou o mar como motor econômico e patrimônio nacional que exige governança diante das pressões climáticas. A cobrança por leis mais duras ganhou força com a manifestação de Herman Benjamin, presidente do Superior Tribunal de Justiça. O magistrado exigiu regras claras para proteger os recifes de corais e lembrou que a poluição por plásticos é um problema global, cuja solução depende do esforço conjunto de vários países.
Embora o parlamento tenha avançado com a ratificação do Tratado do Alto-Mar, a professora Carina Costa de Oliveira, da Universidade de Brasília (UnB), alertou que compromissos no papel não mudam a realidade sem aplicação prática. Ela defende a urgência de um planejamento espacial marinho.
Essa preocupação com o abismo entre o discurso e a prática foi endossada por Carolina Cardoso, da plataforma PainelMar. Carolina apontou a contradição de o país discutir propostas que facilitam a mineração marinha e reduzem reservas protegidas no mesmo momento em que tenta cumprir a Meta 30×30, compromisso internacional de blindar pelo menos 30% do território marinho até 2030.
A liderança indesejada na América Latina
O tamanho do desafio doméstico ficou evidente nos dados trazidos por Ademilson Zamboni, diretor-geral da ONG Oceana Brasil. O país ocupa o incômodo posto de oitavo maior poluidor de plástico do mundo, liderando esse ranking negativo em toda a América Latina. Zamboni criticou a insistência em embalagens descartáveis que duram minutos nas mãos do consumidor e séculos na natureza.
Diante desse cenário, o contra-almirante Robledo de Lemos Costa Sá defendeu uma gestão integrada que envolva cientistas, governo e sociedade, enquanto Segen Stefen, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas, lembrou que conter o colapso do clima é impossível sem águas saudáveis.
A sobrevivência humana também entrou na balança sob a perspectiva de quem vive da pesca tradicional. Carlos Alberto Pinto dos Santos representou as comunidades artesanais com um alerta contundente: as supostas novas soluções para a crise climática costumam falhar ao ignorar o conhecimento ancestral acumulado pelas populações costeiras. Para ele, defender o oceano é uma questão de sobrevivência comunitária.































































































