A clássica figura de Medeia, da tragédia grega, ganha uma nova e potente interpretação na peça Medea depois do Sol, que estreou no Sesc Ipiranga, em São Paulo. Escrita e interpretada por Luciana Lyra, a montagem propõe uma profunda reflexão sobre a maternidade, a violência de gênero e a exploração da natureza, temas que ressoam fortemente na contemporaneidade.
Em cartaz próximo ao Dia Internacional da Mulher, o espetáculo mergulha na questão central: qual o destino de Medeia após seu desaparecimento? Lyra, que atua sob a máscara da personagem-título ao lado da atriz-musicista Lisi Andrade, explora Medeia não apenas como símbolo da maternidade em seu limite, mas também como uma figura de sobrevivência a grandes traumas.
Ecofeminismo e a condição feminina
A peça estabelece uma conexão intrínseca entre o corpo da mulher e o corpo da Terra, um conceito que a dramaturga descreve como ecofeminismo. Luciana Lyra explica que a proposta é discutir a paridade entre ambos, constantemente violados, criando um espelhamento da destruição ambiental com a invasão dos espaços e corpos femininos.
Essa abordagem é reforçada pela equipe de criação quase exclusivamente feminina, que incluiu nomes como Ana Cecília Costa e Kátia Daher na direção, e Alessandra Leão e a própria Lyra na trilha sonora original. A visão feminina permeia cada aspecto da encenação, desde o figurino de Carol Badra até a cenografia e iluminação de Camila Jordão.
A pesquisa por trás da Medeia moderna
A inspiração para Medea depois do Sol surgiu da eterna pergunta sobre o paradeiro de Medeia após sua fuga, diferentemente da maioria das tragédias gregas onde a figura feminina perece. Durante sua pesquisa, Lyra conduziu workshops em diversas cidades, questionando mulheres sobre o destino da personagem.
As respostas, muitas vezes, revelaram experiências pessoais de opressão relacionadas à maternidade, como a maternidade compulsória e a sobrecarga do cuidado dos filhos. A dramaturga também visitou a comunidade de Tejucupapo, em Pernambuco, conhecida por suas mulheres guerreiras, onde ouviu relatos impactantes que ressignificam as escolhas extremas de Medeia na mitologia grega.
A peça, portanto, transcende a narrativa mítica para se conectar a realidades dolorosas e urgentes, oferecendo ao público uma oportunidade de confrontar e refletir sobre as complexas camadas da experiência feminina e a relação do ser humano com o planeta.



























































































