Iúna (ES) – O destino econômico de um brasileiro é traçado, em larga medida, antes mesmo de ele ingressar no mercado de trabalho. Um levantamento minucioso, disponibilizado pela plataforma Atlas da Mobilidade Social, detalha como o gênero, a cor da pele e a renda dos pais atuam como travas quase automáticas para a mobilidade entre classes no país. O projeto é uma iniciativa conjunta do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) com o grupo de pesquisa Prospera Lab.
Os números desenham um cenário de baixa fluidez. Entre os jovens criados nos 25% mais pobres, a chance de permanecer na base da pirâmide ao atingir a vida adulta chega a 48%. A porta de saída para a riqueza é estreita: apenas 8,32% conseguem migrar para o topo da pirâmide, e uma parcela mínima de 1,28% alcança o patamar dos 10% mais ricos. Em contrapartida, quem nasce no topo tende a lá ficar, com mais de metade (56,5%) dos filhos de famílias abastadas mantendo-se no estrato superior.
A desigualdade se torna ainda mais evidente ao segmentar os dados por cor e gênero. O Atlas demonstra que, entre os mais pobres, 36,3% dos jovens brancos continuam nesse estrato na idade adulta. O salto é drástico quando se observa a população não branca: a probabilidade de permanecer pobre sobe para 51,6%. O recorte de gênero amplia essa disparidade. Enquanto um terço dos homens filhos de pais pobres permanece nessa condição, para as mulheres o índice dispara para 65,1%. Quando cruzamos os dados — mulheres e não brancas — a persistência na pobreza atinge 69%.
A resiliência dessa hierarquia se confirma ao comparar gerações nascidas entre 1983 e 1990. Apesar de uma leve oscilação positiva, a mobilidade real permanece estagnada, revelando que o “elevador social” brasileiro opera em ritmo lento. Onde se nasce, geograficamente falando, também define essa trajetória. O Sul, o Sudeste e trechos do Centro-Oeste exibem chances mais robustas de ascensão, enquanto o Norte e o Nordeste concentram os maiores focos de imobilidade intergeracional.
A disparidade entre municípios ilustra esse abismo. Em Assis Brasil, no Acre, 84,4% dos jovens cujos pais pertenciam ao quartil de menor renda não conseguem romper essa barreira. O contraste é gritante em Ponte Serrada, Santa Catarina, onde o mesmo índice cai para apenas 2,13%. Segundo as análises, a chave para essa diferença reside na qualidade educacional: cidades com melhores índices no Ideb e menor defasagem escolar oferecem, consistentemente, melhores rotas de saída da miséria.
O Atlas da Mobilidade Social utiliza dados da Receita Federal, do Ministério do Trabalho e do IBGE para fundamentar essas conclusões, baseando-se em metodologias de mensuração intergeracional. A conclusão é direta: políticas de educação são essenciais, mas insuficientes se não forem acompanhadas por estratégias econômicas que ampliem as chances reais ao longo de toda a vida dos indivíduos. O desafio para gestores públicos permanece claro: combater as desvantagens impostas no berço para permitir que o mérito individual encontre terreno fértil.












