Vila Velha (ES) – A aviação brasileira perdeu nesta quinta-feira (1º) uma de suas vozes mais respeitadas e acessíveis. Joselito Geraldo de Sousa, o Lito Sousa, faleceu aos 59 anos devido a complicações decorrentes da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). O diagnóstico, que desafiou a medicina e mobilizou uma rede de apoio nas redes sociais nos últimos meses, encerra a trajetória de um dos maiores nomes da comunicação técnica voltada ao transporte aéreo no país.
Natural do Rio Grande do Norte e com uma história de vida profundamente ligada a Santos, no litoral paulista, Lito construiu sua trajetória sobre décadas de trabalho como mecânico de aeronaves e piloto. Ele não apenas acumulou conhecimento em companhias aéreas nacionais e estrangeiras, mas desenvolveu uma habilidade rara: o dom de desmistificar procedimentos complexos, transformando manuais de voo em conteúdos que alcançaram mais de 4 milhões de inscritos em seu canal e outros 4,7 milhões de seguidores no Instagram.
O impacto de sua partida foi anunciado em um vídeo publicado por sua esposa, Mila Seidl. Em um relato emocionante, ela recordou o paradoxo de tratar, em seus vídeos, de rotas que precisavam de reajustes diante de planos que saíam do curso, para então enfrentar a realidade de sua própria despedida. A dedicação de Lito ao setor, que incluía a análise minuciosa de desastres aéreos e a promoção de uma cultura de segurança, deixou uma marca indelével na educação aeronáutica popular.
A luta contra a doença de Creutzfeldt-Jakob foi marcada por um esforço conjunto entre familiares e a rede de apoiadores de Lito. Em setembro, o empenho resultou na autorização excepcional da Anvisa para a importação de uma substância experimental, em uma tentativa desesperada de conter o avanço da condição. O quadro, ainda cercado por enigmas pela comunidade médica, é caracterizado pelo acúmulo de príons no cérebro — proteínas que, ao se tornarem anormais, induzem uma degeneração rápida das células nervosas. Com menos de 100 casos suspeitos anualmente no Brasil, a enfermidade permanece como um desafio sem cura conhecida.
Mesmo diante do agravamento de sintomas motores e visuais que pontuavam seus últimos meses, Lito manteve a lucidez que sempre norteou seu trabalho. O governo de São Paulo manifestou pesar oficial, destacando sua trajetória como escritor, empresário e comunicador que aproximou o grande público dos bastidores da aviação.
A família ainda não definiu os protocolos para as cerimônias de despedida. Por ora, fica o registro oficial deixado pelos seus entes queridos: Lito não apenas explicou como os aviões voam, mas inspirou uma legião de pessoas a acreditarem em seus próprios horizontes. Seu legado permanece vivo na democratização do saber técnico e no impacto duradouro que gerou naqueles que, mesmo sem nunca terem pisado em um cockpit, aprenderam a olhar para o céu com mais segurança.












