Faixa de Gaza, Palestina – O calendário marca exatos três anos desde a ofensiva liderada pelo Hamas contra Israel, um atentado que resultou em 1,2 mil mortes em apenas vinte e quatro horas e mudou para sempre a geopolítica regional. O saldo trágico daquele dia não se limitou às vítimas diretas; o grupo fez 251 reféns, cujos destinos foram selados, em muitos casos, ainda no cativeiro. O evento disparou um confronto de proporções massivas, deixando rastros de destruição que hoje definem a sobrevivência de dois milhões de palestinos, amontoados em um terço de seu território original sob risco constante.
A resposta militar de Israel, que resultou na morte de 74 mil palestinos, consolidou uma guinada à extrema-direita dentro do governo israelense. Para analistas, a operação deixou de ser uma resposta militar para se transformar em um projeto claro de inviabilização de um futuro Estado palestino. Ao tratar o território de Gaza como terra arrasada, Tel Aviv ignora os conceitos clássicos de guerra, já que a disparidade entre as forças envolvidas — um exército convencional contra combatentes locais — torna a ocupação um fato consumado e devastador.
Internacionalmente, a figura de Benjamin Netanyahu tornou-se um ponto de isolamento, salvo pela manutenção do apoio incondicional de Washington. A relação entre Estados Unidos e Israel transcende a diplomacia tradicional, aproximando-se da dinâmica doméstica interna americana, dada a influência política significativa exercida pela comunidade judaica naquele país. Para especialistas, o cenário reflete uma estratégia de longo prazo onde a inabitabilidade de Gaza serviria para pressionar por um exílio forçado em direção ao Egito, permitindo a anexação territorial direta.
O uso político da tragédia segue uma cartilha já conhecida neste século. Netanyahu, enfrentando índices de baixa popularidade antes do massacre, aproveitou o trauma para forjar uma coesão nacional artificial e implementar medidas de exceção, chegando a tensionar os limites da Suprema Corte israelense. É uma tática de sobrevivência política que ecoa, ainda que em proporções distintas, a gestão de crises pós-11 de setembro nos Estados Unidos.
Este marco de três anos ganha uma camada extra de tensão, ocorrendo a menos de três semanas das eleições gerais em Israel. O pleito, visto por muitos como um referendo sobre a permanência de Netanyahu no poder, deverá testar se a estratégia de união nacional via conflito ainda possui fôlego eleitoral em uma sociedade cada vez mais dividida sobre o custo humanitário e político das escolhas feitas desde aquele 7 de outubro.









