Brasília (DF) – O desenho da política externa brasileira para os próximos anos apresenta caminhos distintos nos planos de governo dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Enquanto a plataforma de Lula prioriza o fortalecimento de laços com o Sul Global e uma diplomacia universalista, o documento de Flávio Bolsonaro aposta em uma aproximação estratégica com os Estados Unidos, Israel e Argentina, propondo um distanciamento da carga ideológica que, segundo ele, pautou gestões anteriores.
A densidade dos textos também reflete visões diferentes sobre o tema. Lula dedica quase seis páginas para detalhar suas diretrizes, marcando a importância que a área terá em sua gestão. Já o plano de Flávio Bolsonaro ocupa cerca de três páginas, centralizando o discurso na soberania praticada por meio de resultados comerciais e pragmatismo, longe do que chama de “bravatas”.
Para o projeto petista, o cenário mundial é de conflitos sem precedentes desde a 2ª Guerra Mundial. O texto rejeita qualquer subordinação a interesses estrangeiros e critica o que classifica como uma ordem mundial predatória. Em resposta, Flávio Bolsonaro argumenta que, nos últimos anos, o interesse nacional foi preterido em favor de ideologias, mirando especificamente as relações mantidas com o Irã e a Venezuela. O candidato do PL defende as ações bélicas de Donald Trump, como a pressão sobre o regime iraniano e a incursão na Venezuela, enquanto o plano de Lula insiste na mediação diplomática e no respeito ao direito internacional.
A defesa nacional surge como um pilar complementar à diplomacia em ambos os projetos. Lula sustenta que não existe soberania internacional sem uma estrutura de defesa robusta. Para comprovar essa tese, o documento lista investimentos do Novo PAC que somam R$ 20,4 bilhões desde 2023, incluindo a entrega de caças F-39 Gripen — com produção local de aeronaves — e a modernização da frota de cargueiros e fragatas.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro conecta a defesa ao desenvolvimento tecnológico. Sua proposta foca em incentivos para drones e inteligência artificial, buscando equipar as Forças Armadas para os desafios políticos do século XXI. O candidato do PL vê a adesão à OCDE como um passo necessário para integrar o Brasil às melhores práticas globais de governança e normas internacionais.
Um ponto de fricção reside nas terras raras e minerais críticos. Lula propõe uma política que impeça a simples exportação dessas matérias-primas, visando o beneficiamento e a agregação de valor tecnológico dentro do país. Flávio Bolsonaro, por sua vez, enxerga o Brasil como peça-chave para romper a dependência que os Estados Unidos possuem da China. Em eventos recentes, o candidato chegou a descrever o Brasil como o “campo de batalha” onde o futuro do Hemisfério seria decidido, dado que o país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, ficando atrás apenas da China.
A tensão comercial também é central no embate. Lula critica o isolamento do Brasil e atribui a aliados do bolsonarismo a articulação de tarifas impostas por Donald Trump, um movimento que ele considera prejudicial ao agronegócio. Flávio Bolsonaro rebate as críticas, sustentando que sua gestão buscará soluções diplomáticas eficazes e técnicas, sem o “preconceito” que, em sua visão, teria marcado a postura do governo atual frente a potências como os Estados Unidos e a União Europeia.








