Brasília (DF) – O campo educacional, peça-chave para o desenvolvimento socioeconômico do país, emerge no segundo turno da eleição presidencial — marcado para 25 de outubro — com propostas que revelam concepções antagônicas sobre o papel do Estado na formação dos cidadãos. Enquanto o atual mandatário Luiz Inácio Lula da Silva enxerga a escola como motor central de transformação e redução de desigualdades, o senador Flávio Bolsonaro pauta sua plataforma pela integração entre o ambiente escolar e os valores familiares, com ênfase no mercado de trabalho e na disciplina.
A estratégia de Lula para o próximo ciclo foca na continuidade de investimentos na infraestrutura física e na universalização do tempo integral. O presidente propõe concluir a construção de mais de 3.500 creches e pré-escolas através do Novo PAC, além de elevar o patamar de matrículas em jornada estendida para alcançar cerca de 1,8 milhão de novos estudantes até 2025. O fortalecimento do programa Pé-de-Meia, que atende beneficiários do CadÚnico, também figura como alicerce de sua política de combate à evasão escolar, complementado pela promessa de expandir a rede de Institutos Federais em 111 novos campi voltados para áreas com carência de oferta técnica.
Do outro lado da disputa, Flávio Bolsonaro desenha um modelo que prioriza a autonomia familiar e a eficiência privada. Um dos pilares do seu plano é a instituição do voucher-creche, destinado às famílias sem acesso a vagas públicas para que busquem o ensino em instituições privadas credenciadas. No ensino básico, sua proposta insiste no modelo de escolas cívico-militares, sob o argumento de unir desempenho acadêmico ao rigor disciplinar. Além disso, Flávio defende a transição da governança do ensino superior, atualmente sob o guarda-chuva do MEC, para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, buscando alinhar a graduação diretamente às demandas de inovação do setor produtivo.
O financiamento do ensino superior também coloca os candidatos em trajetórias divergentes. Lula mantém a aposta no fomento direto por meio de custeio, investimento em hospitais universitários e na expansão de unidades como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará. Já Flávio propõe a adoção de um empréstimo contingente à renda, onde o estudante financiaria seu curso para quitar o débito apenas após a inserção no mercado de trabalho, com parcelas proporcionais aos seus rendimentos futuros.
No que tange à alfabetização, a disputa ganha contornos técnicos específicos. Lula se ancora no Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, fixando a meta de ter 80% das crianças leitoras na idade correta até 2030. Em contrapartida, o projeto do PL enfatiza a adoção do método fônico, focado na decodificação de sons e letras como prioridade pedagógica para os primeiros anos do ensino fundamental.
Para a valorização dos professores, o petista reforça a política de reajuste do Piso Nacional do Magistério e a implementação do Bolsa Mais Professores. Flávio Bolsonaro, por sua vez, alinha suas propostas de capacitação docente à necessidade de evidências científicas e à criação do Programa Acolher, no qual alunos com bom rendimento poderiam ser remunerados para exercer atividades de reforço escolar aos seus pares. A divergência estende-se ainda à conectividade: enquanto Lula foca na universalização do acesso digital como medida de cidadania via Novo PAC, o plano de Flávio prioriza o uso de tecnologias como robótica e inteligência artificial para preparar o aluno para o empreendedorismo e o manejo de recursos financeiros.
Este debate ocorre sob a sombra dos impactos da pandemia de covid-19, que entre 2020 e 2023 forçou milhões de crianças para fora do sistema escolar, elevando taxas de analfabetismo infantil. O cenário impõe, para qualquer um dos eleitos, o desafio imediato de recuperar a defasagem de aprendizagem acumulada nos anos de crise sanitária, um problema estrutural que transcende as disputas ideológicas de campanha.












