Paris, França – O cenário na França no domingo (18) ainda era de fumaça e apreensão, apenas 24 horas depois de uma das jornadas mais violentas dos últimos anos no país. O que começou como uma insatisfação popular contra a inflação e a deterioração dos serviços públicos transformou-se em uma sucessão de distúrbios que deixou rastros de destruição de Lille a Marselha. O saldo imediato contabiliza uma morte após uma parada cardíaca durante os atos em Paris, mais de 2 mil detidos e cerca de 600 policiais feridos.
A Place de la République, na capital francesa, foi palco de novos enfrentamentos na tarde de domingo. O uso de gás lacrimogêneo pelas forças de segurança e o incêndio de bicicletas nas ruas revelaram que o esgotamento social não arrefeceu. O empresário Tije De Boer, que presenciou o caos enquanto buscava abrigo com seus filhos, descreveu a área como uma verdadeira zona de guerra, forçando a evacuação do hotel onde estavam hospedados.
A violência atingiu prédios públicos e estabelecimentos comerciais. Em Limoges, um ataque criminoso à prefeitura, construída há mais de um século, deixou o prefeito Guillaume Guerin em estado de choque. O gestor classificou o episódio como um atentado premeditado, onde ocupantes do local temeram pela própria vida, e ameaçou deixar o cargo caso não obtenha suporte para a reconstrução. Em Bordeaux, o cenário não foi diferente, com cerca de 100 lojas saqueadas.
O impacto financeiro preocupa o setor varejista. Alexandre Bompard, CEO do Carrefour, afirmou que a rede sofreu danos em 50 unidades, sendo 20 delas alvos diretos de saques, resultando em prejuízos que somam dezenas de milhões de euros. O governo prometeu que os responsáveis pelos danos serão punidos e deverão arcar com as reparações, enquanto prefeitos de cidades como Marselha já anunciaram auxílios de emergência para socorrer os comerciantes locais.
O presidente Emmanuel Macron, alvo central da ira dos manifestantes e sob intensa pressão política, deve se pronunciar à nação às 20h deste domingo. O governo aponta a extrema esquerda e grupos criminosos como os principais responsáveis por instigar os saques e a destruição. Por outro lado, Jordan Bardella, nome de destaque da extrema direita, aproveitou o clima de instabilidade para pedir a renúncia de Macron, sob a justificativa de que a França teria sido humilhada por décadas de negligência com a autoridade estatal.
O movimento, que ganha contornos de crise política, teve origem há um mês com reivindicações de estudantes e professores sobre a situação das escolas. A pauta, contudo, fundiu-se rapidamente a um descontentamento social latente, impulsionado pela dívida pública, pela economia fragilizada e pela percepção de desigualdade que agora coloca o futuro governo em xeque antes mesmo do próximo ciclo eleitoral.








