Carauari (AM) – A imensidão de Carauari, no interior do Amazonas, impõe uma geografia cruel para quem precisa de atendimento médico. Com mais de 25,7 mil quilômetros quadrados — área maior que a de muitos países —, o município é recortado pelo sinuoso Rio Juruá. Para as populações ribeirinhas, chegar à zona urbana em busca de socorro pode significar dias navegando, a depender do tipo de embarcação e da seca do rio. Esse isolamento histórico cobra um preço alto em vidas.
Francisco Solivan Peres de Araújo, hoje presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), guarda essa marca na própria trajetória. No fim da década de 80, ele perdeu a mãe, vítima de hemorragia pós-parto, quando tinha apenas dois anos. Sem barcos adequados ou comunicação na época, não houve chance de salvá-la.
Essa triste realidade começou a mudar recentemente com o projeto SUS na Floresta. Uma parceria entre a prefeitura local e organizações da sociedade civil — que une a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), BNDES, Umane e IDIS — viabilizou a instalação de dois pontos de saúde fixos nas comunidades de Bauana e Campina. Equipados com telessaúde, consultórios odontológicos e salas de triagem, os locais atendem 56 comunidades e beneficiam cerca de 4,7 mil pessoas com atenção primária.
A urgência do tempo na floresta
As novas estruturas reduzem o tempo de viagem para atendimento de doze para apenas quatro horas, dependendo da comunidade. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, que atua na unidade de Campina, estima que a presença física dos profissionais diminua em até 80% a necessidade de resgates por lancha. O objetivo é tratar o paciente antes que o quadro clínico piore.
Antes desse avanço, a rotina de quem adoece na região era marcada pelo desespero. Adriana da Silva e Silva ainda convive com as sequelas de uma picada de cobra sofrida em 2019, na comunidade de São José do Nachiqui. Sem resgate disponível de imediato, ela esperou mais de 24 horas por socorro. O veneno agiu no organismo e exigiu quatro cirurgias complexas para salvar sua perna, que hoje ainda apresenta inchaço crônico e perda de sensibilidade.
Raimundo Viana da Cunha, colaborador do ICMBio, lembra que seu irmão faleceu em 1994 sem sequer receber um diagnóstico. A família, moradora da comunidade Mandioca, esperou uma semana até conseguir carona em um barco comercial conhecido como regatão. A viagem até a cidade durou mais sete dias, pois o barco parava para vender mercadorias. Quando finalmente chegou ao hospital, o jovem não resistiu às dores que sentia na barriga.
Desafios de gestão e permanência na terra
Manter serviços de saúde em locais de difícil acesso é um desafio financeiro imenso. A prefeitura de Carauari, com cerca de 28 mil habitantes e um orçamento estimado em R$ 142 milhões para 2026, gasta entre R$ 40 mil e R$ 45 mil mensais para manter lanchas de socorro. Unidades básicas de saúde fluviais atendem a região, mas apenas de forma eventual devido ao alto custo das viagens.
Para apoiar esses municípios, o Ministério da Saúde informou a aplicação de R$ 500 milhões na implantação de equipes de Saúde da Família Ribeirinha pelo país, ampliando a assistência que antes era limitada a poucas cidades da Amazônia Legal e do Pantanal.
Mais do que salvar vidas, garantir atendimento médico na floresta ajuda a conter o êxodo rural. Para os ribeirinhos, mudar-se para a cidade significa abandonar o trabalho tradicional com o manejo do pirarucu sustentável, o extrativismo da borracha e a coleta de sementes oleaginosas. Com os novos pontos de saúde, eles conseguem continuar protegendo a floresta com a garantia de que não serão esquecidos em momentos de dor.
































































































