Rio de Janeiro (RJ) – Há quase duas décadas, a cantora e compositora portuguesa Carminho desembarca em solo brasileiro para estreitar laços que, longe de enfraquecerem, apenas ganharam densidade. A relação, que começou em 2007, transformou o país em uma extensão de sua própria casa. Nesta sexta-feira (21), a turnê mundial Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir aporta no Vivo Rio, localizado na zona sul da capital fluminense, dando continuidade a uma série de apresentações que já passou pelo Sesc Palladium, em Belo Horizonte, na última quinta-feira (19).
Para a artista, a conexão com o Brasil ultrapassa as fronteiras da língua compartilhada. Ela observa o país como um horizonte de possibilidades culturais e espirituais únicas. Mesmo diante de realidades geográficas e hábitos distintos, a música surge como um elo indissolúvel. Quando pisa aqui, ela diz sentir-se em um ambiente de trocas constantes, cercada por amigos e influências que moldaram sua trajetória pessoal e profissional nos últimos 17 anos.
O fado além do estigma da melancolia
Embora o fado seja frequentemente atrelado a uma aura de tristeza, Carminho prefere descrever o gênero através de sua profundidade. Para ela, a linguagem do fado é plástica, capaz de acomodar toda a gama de sentimentos humanos, inclusive os mais dinâmicos e criativos. Em suas performances, a tradição caminha lado a lado com o experimentalismo, reforçado por improvisações que tornam cada show um evento irrepetível, sustentado pela espontaneidade e pela conexão emocional com o público brasileiro.
Uma teia de afetos musicais
Ao longo dessas quase duas décadas, a cantora construiu pontes sólidas com nomes consagrados da música nacional, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Fernanda Montenegro. A admiração, porém, não se limita aos ícones; Carminho mantém um olhar atento à nova geração, acompanhando nomes como Silva, Marina Sena, Agnes Nunes, Ana Frango Elétrico, Dora Morelenbaum, Jotapê, Zé Ibarra e Tim Bernardes. Ela define o compartilhamento de palcos e vivências com esses artistas como um privilégio que a transformou tanto como mulher quanto como criadora.
Nesse mapa afetivo, Marisa Monte ocupa um lugar de destaque. O encontro entre ambas, marcado por uma generosidade que a portuguesa recorda com nitidez — desde o convite espontâneo para um café até a partilha de canções inéditas —, deu início a uma amizade que transcende o estúdio. Essa proximidade reflete a essência do seu mais recente trabalho, Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir.
Sendo seu sétimo álbum, o disco traz 11 faixas, das quais oito levam sua assinatura. O trabalho funciona como um tributo às mulheres que pavimentaram a história do fado, incluindo figuras como sua mãe, Teresa Siqueira, além de Amália Rodrigues e Beatriz da Conceição. Na atual turnê, o repertório resgata essa linhagem, intercalando composições próprias com clássicos como Chuva no Mar e releituras da obra de Tom Jobim, como Chovendo na Roseira, consolidando o Brasil como um destino inevitável em sua carreira.












