Cachoeiro do Itapemirim (ES) – O sistema de controle do Facebook falhou ao ser testado com conteúdos de desinformação eleitoral. A conclusão é de uma análise realizada pela Anistia Internacional, divulgada nesta terça-feira (25), a apenas 40 dias do primeiro turno das eleições gerais, previsto para 4 de outubro. Dos 14 anúncios elaborados com mentiras deliberadas, a rede social, controlada pela Meta, autorizou a veiculação de mais da metade antes que a própria organização cancelasse o processo.
Para o experimento, a entidade submeteu 15 anúncios pagos, todos escritos em português e configurados para impactar eleitores brasileiros a partir dos 16 anos. Apenas um dos textos era neutro; os outros 14 foram desenhados para testar os mecanismos de segurança da plataforma diante de desinformação. O conteúdo se dividia em três eixos: o ataque direto à integridade do sistema eleitoral, a construção de adversários políticos como ameaças existenciais e a defesa de soluções autoritárias — incluindo o uso de força militar.
Um exemplo prático inserido no teste sugeria falsamente que, se a abstenção eleitoral ultrapassasse 50%, os militares retomariam o poder. Tal alegação já foi desmentida repetidamente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Outras peças continham acusações infundadas de fraudes e orientações incorretas sobre o calendário e os procedimentos de votação.
A Anistia Internacional ressaltou que os anúncios aprovados não passaram por qualquer filtro de conteúdo. As outras sete peças recusadas foram barradas apenas por questões burocráticas, relacionadas à verificação de identidade exigida para temas políticos, e não por serem falsas. Para Jurema Werneck, diretora-executiva da ONG, o cenário é alarmante, pois coloca em xeque o compromisso da Meta em evitar que sua estrutura de publicidade — responsável por 97% dos US$ 60 bilhões de receita da empresa no segundo trimestre de 2026 — sirva de vetor para a desinformação.
Outro ponto de atenção destacado pelo levantamento é a origem do tráfego. Os anúncios foram disparados de Londres sem o uso de ferramentas para mascarar a localização, como redes privadas virtuais (VPN). Para o pesquisador Ummar Bashir, essa facilidade de operar remotamente sugere que as barreiras de proteção da rede social contra interferências internas ou externas não possuem a confiabilidade necessária.
Em resposta, a Meta sustentou que o relatório é baseado em uma amostra reduzida e que as peças sequer chegaram a ser exibidas para o público. A empresa afirmou possuir múltiplas camadas de detecção e garantiu que direciona recursos substanciais para a segurança do pleito de 2026, seguindo protocolos rígidos de transparência.
A legislação brasileira, contudo, é rigorosa quanto ao dever das plataformas. Conforme as resoluções do TSE, como a 23.610/2019 e suas atualizações recentes em 2024 e 2026, cabe aos provedores de internet a obrigação ativa de impedir a circulação de fatos notoriamente inverídicos. O texto normativo deixa claro que conteúdos que ataquem a integridade do sistema eletrônico de votação devem ser removidos pelas próprias empresas, independentemente de ordens judiciais específicas.











