São Paulo (SP) – As tradicionais notícias falsas, que antes dominavam o debate digital, foram superadas por ameaças mais sofisticadas e perigosas. Vídeos fabricados por inteligência artificial e fluxos de informação de baixa qualidade ocuparam o topo da lista de riscos às eleições e à democracia brasileira. O diagnóstico consta no Guia Internet, Democracia e Eleições, lançado nesta terça-feira (22) pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
A disseminação de conteúdos enganosos não ocorre mais de forma isolada. O levantamento observa que a desinformação hoje circula simultaneamente por várias plataformas, sendo o vídeo o principal veículo de transporte. Geralmente, uma breve legenda acompanha o material audiovisual para conferir uma falsa sensação de autoridade à narrativa. O risco é tamanho que o Fórum Econômico Mundial já incluiu a desinformação entre os problemas globais mais críticos para 2025.
A tecnologia generativa, que teve uma participação embrionária no pleito de 2022, agora ganha contornos mais robustos e perigosos. O uso de ferramentas que direcionam conteúdos para perfis específicos de usuários torna a manipulação quase invisível, disfarçando mentiras sob uma aparência de verdade. Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, ressalta que as redes sociais, onde a maioria dos brasileiros busca notícias, são geridas por empresas privadas focadas em lucro, e não em proteger o interesse público.
O documento detalha o funcionamento dos sistemas de recomendação, o impacto das ferramentas de linguagem conversacional e a ameaça real das deepfakes. O realismo dessas produções evoluiu a ponto de enganar eleitores habituados a verificar informações, criando um ambiente de desconfiança generalizada. O efeito colateral é severo: ao duvidar de tudo, o público perde a referência até sobre fatos reais, fragilizando instituições como o Judiciário e a imprensa.
O estudo também coloca uma lupa sobre a atuação de influenciadores digitais. Embora ocupem um lugar de destaque na formação da opinião pública, esses comunicadores não possuem obrigatoriedade de seguir códigos de ética ou prestar contas por imprecisões deliberadas, uma diferença crucial em relação ao trabalho jornalístico profissional.
Além da estrutura técnica da desinformação, o guia aborda o comportamento do usuário. O fenômeno da racionalidade motivada faz com que as pessoas busquem apenas o que confirma suas crenças, descartando prontamente o contraditório. Esse mecanismo gera um ciclo de reforço ideológico, onde a verdade se torna secundária diante da necessidade de validar visões pessoais. O material, disponível no portal do CGI.br, oferece diretrizes para que o cidadão possa identificar essas armadilhas e evitar se tornar um transmissor de enganos durante o período eleitoral.












