Guarapari (ES) – O deslocamento urbano no Brasil impõe um teto invisível às aspirações femininas. Quatro em cada dez mulheres já deixaram de aceitar um emprego ou uma chance profissional puramente por não conseguirem transitar pelas cidades com segurança, agilidade ou orçamento suficiente. O cenário é revelado pela análise O Direito de Ir, Vir e Viver, que ouviu 564 mulheres em capitais e cidades de diversos estados entre junho e julho de 2026.
O impacto vai além das relações de trabalho. A precariedade do transporte público e o medo constante de violência forçaram 54% das entrevistadas a faltar em compromissos profissionais importantes, enquanto 21% desistiram de buscar capacitação técnica ou acadêmica. Uma estudante que conquistou vaga na UFRJ, por exemplo, viu a celebração ser substituída pela desistência: após seguidos assaltos em ônibus, ela percebeu que não conseguiria chegar ao campus com a segurança necessária.
A insegurança, apontada por 32% das participantes como a barreira principal, dita comportamentos defensivos. Cerca de 87% das mulheres restringem sua circulação, evitando bairros específicos, e 73% monitoram rigorosamente o relógio para evitar horários considerados de risco. A adaptação física é comum: 60% já alteraram rotas habituais para tentar reduzir a exposição, e 63% abandonaram meios de transporte que consideram vulneráveis.
O assédio sexual é um elemento central desse medo. Aproximadamente 89% das ouvidas relatam ter sofrido algum tipo de importunação em veículos ou vias públicas. O ônibus lidera as estatísticas de abuso (68,8%), seguido por trajetos a pé (60,8%) e o sistema de metrô ou trem (50,2%). Essa realidade empurra a maioria para os aplicativos de transporte, opção utilizada por 80% das mulheres — mesmo que o custo se mostre proibitivo para 67% das moradoras de periferias.
A desigualdade territorial agrava o quadro. Enquanto 52% das participantes gastam mais de uma hora por dia apenas no trajeto, 45% das entrevistadas apontam que as condições de mobilidade em suas residências são inferiores às do centro urbano. A renda dita o modal: 80,3% das mulheres de baixa renda dependem exclusivamente de ônibus, ao passo que a posse de veículo próprio é uma realidade de 40,6% entre as de alta renda.
A sobrecarga das tarefas de cuidado também molda a logística diária. Como 54% das mulheres assumem sozinhas as responsabilidades domésticas e de assistência a dependentes, seus itinerários não são lineares. Elas precisam integrar paradas em escolas, farmácias e clínicas médicas ao trajeto, o que faz com que a escolha do transporte seja frequentemente definida pela necessidade de zelar por filhos ou idosos. Quando transportam essas pessoas, 53% das mulheres recorrem aos aplicativos de transporte, buscando uma proteção que o sistema coletivo falha em prover.












