Brasília (DF) – Às margens de uma avenida movimentada em Brasília, Andrea, uma autônoma de 32 anos, equilibra a exaustão da rotina com a tarefa de educar o filho de 6 anos. Enquanto espera o transporte rumo a Samambaia, a criança chora após um limite imposto, mas a mãe mantém a firmeza na voz. Sem recorrer a agressões, ela quebra um ciclo que marcou sua própria infância, quando os tapas eram a resposta padrão do pai para qualquer desobediência.
O exemplo de Andrea, contudo, destoa de uma parcela significativa da população. Um novo levantamento do Unicef, divulgado nesta quinta-feira (24), expõe uma barreira cultural profunda: para muitos responsáveis, o tapa não é violência, mas sim uma técnica pedagógica. Em relatos colhidos no Rio de Janeiro, pais ainda insistem na distinção entre o que chamam de bater para educar e o espancamento, legitimando a primeira prática como uma medida necessária.
A pesquisa focou na primeira infância e ouviu 214 pessoas em áreas de vulnerabilidade social no Rio de Janeiro, Recife e Manaus. Segundo Luiza Teixeira, especialista em proteção do Unicef, a criança frequentemente é tratada menos como indivíduo e mais como propriedade. Essa visão enraizada esvazia o impacto da Lei Menino Bernardo, em vigor há 12 anos. O texto legal, que veda castigos físicos e humilhantes, permanece um desconhecido nas periferias onde a violência ainda é lida como ferramenta para colocar os filhos na linha.
O cenário é agravado pelo silenciamento comunitário e pela falta de suporte estatal. Muitas vezes, a agressão ocorre no calor de uma birra, movida por um descontrole emocional do adulto, seguida por um arrependimento tardio. O diagnóstico aponta um vácuo de repertório: falta preparo na rede de proteção para orientar famílias e oferecer caminhos além da reação punitiva. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública corroboram a urgência, com o registro de mais de 60 mil casos de maus-tratos ou lesão corporal em contexto doméstico apenas no ano passado.
Do ponto de vista neurológico, a palmada ignora o estágio de maturação cerebral da criança. A psicóloga infantil Mara Gomes explica que o sistema de autorregulação e inibição de impulsos ainda está em formação nos primeiros anos. Ao aplicar a força, o adulto ensina o medo e a submissão. Para ela, o alerta é direto: ao naturalizar a dor como forma de correção, o pai ou mãe planta a semente de que, na vida adulta, o afeto pode conviver com o abuso.
No ambiente educacional, a pedagoga Marília Paiva defende uma mudança de perspectiva. O que o adulto taxativamente rotula como birra costuma ser uma tentativa frustrada de comunicação. A chave, sugere a especialista, está em um método de quatro etapas: controle da própria emoção pelo adulto, acolhimento do sentimento da criança, imposição do limite e, por fim, o ensinamento. Educar exige que o adulto esteja disponível para a troca, algo que o medo imposto pelo tapa inviabiliza permanentemente.












