Brasília (DF) – O primeiro turno das eleições de 2026 foi marcado por uma invasão de imagens e vídeos manipulados. Dados do projeto VigIA, fruto de uma parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp, revelam que pelo menos 554 conteúdos do tipo deepfake foram disseminados nas redes entre 16 de agosto e 28 de setembro. A prática, que utiliza inteligência artificial para forjar falas ou atos inexistentes, ignora abertamente as restrições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O monitoramento, que analisou 920 casos confirmados de uso de IA de um universo de 1.941 suspeitas, indica que as deepfakes compõem 60% desse volume. O cenário aponta para uma rotina de desinformação: jornalistas aparecem em vídeos forjados lendo notícias falsas, enquanto celebridades parecem endossar candidatos em montagens convincentes. Embora o TSE tenha estabelecido punições severas, incluindo a cassação de mandatos ou candidaturas, a aplicação da lei esbarra em um obstáculo prático: o anonimato.
A maior parte dessas criações — 525 casos — partiu de usuários comuns ou perfis sem identificação clara. Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo relatório, observa que o volume produzido por avatares e contas anônimas desafia o alcance da fiscalização. Para conter o problema, a Justiça precisaria, obrigatoriamente, de um trabalho conjunto com as plataformas para identificar os responsáveis por trás dessas postagens.
A falta de transparência também é um problema recorrente. A legislação exige que qualquer material produzido com auxílio de IA seja devidamente sinalizado. No entanto, o levantamento mostra que apenas 40% das 920 peças identificadas continham o aviso obrigatório. Entre os conteúdos irregulares, 75 foram publicados por partidos ou coligações, o que eleva a preocupação das autoridades.
O foco das manipulações recaiu principalmente sobre a disputa presidencial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a figura pública mais retratada, aparecendo em 379 publicações; dessas, 34% tinham como objetivo atacar sua candidatura. Logo atrás, Flávio Bolsonaro foi alvo ou protagonista de 190 peças, onde 40% buscavam promover sua imagem. O humor e a sátira também ocupam um espaço significativo na produção sintética, servindo como veículo tanto para críticas quanto para entretenimento.
Cristina Tardáguila, fundadora da agência responsável pelo monitoramento, enfatiza que a inteligência artificial deixou de ser um recurso isolado para se tornar parte integrante da comunicação política cotidiana. Com quase um conteúdo gerado por IA surgindo a cada hora na internet, a escala do desafio para o eleitor e para os órgãos de controle torna-se evidente, exigindo vigilância constante em um ambiente digital cada vez mais difícil de auditar.












