Brasília (DF) – Os 50 segundos de abraço entre Daniel Vidal Moura e o presidente Lula, na celebração dos 81 anos do mandatário, foram insuficientes para que o estudante de 13 anos dissesse tudo o que planejou. Morador da Asa Sul, em Brasília, Daniel, que nasceu com Amaurose Congênita de Leber — uma condição genética que limita sua visão a menos de 5% em ambos os olhos —, tinha um roteiro político na cabeça. Naquele 27 de outubro, ele trocou o treino de futebol pela esperança de encontrar o presidente perto dos portões do Palácio da Alvorada.
Apesar da pouca idade, Daniel articula um desejo claro: ser presidente da República. Ao falar sobre o encontro, o garoto lamenta que o tempo tenha sido curto, pois pretendia sugerir a criação de uma pasta ministerial focada exclusivamente nas pessoas com deficiência. Embora o Brasil já possua a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, o jovem insiste que a estrutura atual não esgota as necessidades de acessibilidade no cotidiano.
Para Daniel, a barreira física é um desafio diário. Ele observa, com precisão, a irregularidade das calçadas e a falta de elevadores ou rampas em prédios públicos, problemas que, segundo ele, impedem a autonomia real de quem utiliza cadeiras de rodas ou tem baixa visão. Esse olhar atento sobre o país, contudo, não se limita à sua condição pessoal. O estudante, influenciado por um ambiente familiar de estímulo intelectual, acompanha indicadores como a saída do Brasil do Mapa da Fome e os índices de desemprego.
Raquel Vidal, servidora pública e mãe de Daniel, conta que a curiosidade do filho por geopolítica e economia foi alimentada desde cedo. Em casa, o debate sobre preconceito é central. O pai, o bancário Fernando Moura, reforça que a educação do filho passa pela compreensão de que o capacitismo, o racismo e a homofobia não são toleráveis. Essa postura reflete o modo como o garoto interage com seus pares, incentivando amigos a debaterem participação social mesmo antes de atingirem a idade legal para o voto.
Ao ser questionado sobre o que diria em uma conversa de dez minutos com o presidente, a resposta do menino revela um pragmatismo ambicioso. Ele defende a ampliação de tecnologias assistivas, como o teclado em braille que utiliza em seu computador, para que mais estudantes tenham as mesmas ferramentas de aprendizado. Além disso, mantém o foco em uma mudança estrutural: o Brasil precisa deixar de ser visto como um país emergente para se consolidar como uma nação desenvolvida.
Enquanto a mãe observa o entusiasmo do filho com orgulho, destacando que o desejo maior é vê-lo feliz e com acesso a oportunidades, Daniel segue na sua rotina. Entre a escola e os estudos, ele mantém a convicção de que a política não é um campo distante, mas o único caminho para transformar a realidade de quem, como ele, enfrenta um país que ainda precisa aprender a ser plenamente acessível.











