Lisboa, Portugal – O cenário urbano de Lisboa mudou nas últimas semanas. O que antes eram pontos de convivência, como a icônica Praça do Rossio, transformaram-se em campos de resistência com o surgimento de acampamentos de protesto contra o encarecimento drástico da moradia. O movimento, que teve início no Porto há pouco menos de um mês, rapidamente ecoou na capital, desafiando a estrutura de custos que hoje asfixia os residentes portugueses.
A reação estatal não foi pacífica. Operações policiais foram realizadas para desocupar áreas públicas, resultando em episódios de violência e denúncias de lesões entre os ativistas. Contudo, o esvaziamento das praças provou ser temporário; a cada investida das forças de segurança, novas tendas são montadas. O impasse ganhou contornos jurídicos neste fim de semana, quando o Tribunal Administrativo de Lisboa concedeu permissão para que os manifestantes permaneçam no Rossio até o dia 24 de novembro. A decisão, entretanto, gera incertezas para comerciantes da região, que já projetam os impactos para o mercado de Natal, planejado para o mesmo local a partir de meados do próximo mês.
Os números justificam o descontentamento. Dados do Pordata revelam que o custo habitacional no país disparou 41,5% entre 2020 e 2025, um aumento que coloca Portugal no topo do ranking de inflação imobiliária na União Europeia, superando com larga margem a média do bloco. Em Lisboa, o cenário é alarmante: o valor médio de um aluguel consome 116% do salário médio local, superando metrópoles como Paris e Madri. A recomendação técnica internacional sugere que o gasto com habitação não ultrapasse 30% da renda mensal.
Priscila Valadão, brasileira radicada em Portugal há 12 anos, personifica essa dificuldade. Ela aponta que um loft no centro de Lisboa custa cerca de 1.500 euros, enquanto o salário mínimo nacional está fixado em 920 euros. “É simplesmente impossível”, desabafa a ativista, que hoje vive na periferia da região metropolitana e divide um quarto para conseguir manter as contas em dia. Para imigrantes, a situação é agravada pelo preconceito. Relatos de recusa de locação apenas pelo sotaque ou a exigência abusiva de um ano de aluguel adiantado tornaram-se práticas recorrentes, exacerbadas pelo clima de xenofobia.
O movimento também mira o projeto de lei em tramitação no Parlamento, que promete reduzir prazos para despejos e remover o teto de 2% para reajustes contratuais. Enquanto isso, o governo de Luís Montenegro anuncia um plano de 10 bilhões de euros para a construção de 133 mil residências. Resta saber se o ambicioso plano será capaz de equilibrar os interesses de proprietários e inquilinos antes que a pressão social nas praças portuguesas atinja um ponto de não retorno.











