Brasília (DF) – Aos 62 anos, Raimundo dos Santos Nascimento cruza os corredores de um curso preparatório na Ceilândia, no Distrito Federal, com uma determinação que desafia o calendário. Ele é um dos 13.821 candidatos do Enem 2026 que já superaram a marca das seis décadas de vida. A trajetória de Raimundo, porém, é feita de cicatrizes e recomeços. Carioca radicado em Brasília há 16 anos, ele passou um longo período em situação de rua no Plano Piloto antes de encontrar no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua e na Escola de Meninos e Meninas do Parque o suporte necessário para concluir o ensino fundamental. Hoje, o objetivo é claro: uma vaga no curso de Psicologia da Universidade de Brasília.
Raimundo não está sozinho em sua empreitada. Ele integra o grupo de alunos do Jovem de Expressão, um dos 1.535 cursinhos que compõem a Rede Nacional de Cursinhos Populares. Essa estrutura, que atende mais de 58 mil estudantes provenientes da rede pública, prioriza perfis historicamente afastados do ambiente acadêmico, como pessoas negras, indígenas, quilombolas, PCDs e famílias com renda per capita de até um salário mínimo — patamar fixado em R$ 1.621 para 2026.
A rotina é intensa e marcada pela superação. Márcia Regina Carvalho Damasceno Dias, diarista, decidiu retomar os estudos duas décadas após concluir o ensino médio. Incentivada pela filha, ela divide o tempo entre uma jornada de trabalho de segunda a sábado e as aulas no cursinho. O desafio de reabrir os cadernos após tanto tempo foi grande, mas o suporte pedagógico transformou o medo em expectativa. Na mesma sala, Gilmara Pereira Braga, caixa de supermercado de 47 anos, também encontrou ali a esperança de se especializar em educação inclusiva. Para ela, o suporte dos professores foi o antídoto contra o pavor que sentia da matemática.
O impacto dessas iniciativas vai além da pedagogia pura. Rodrigo da Silva Soares, coordenador do Jovem de Expressão, destaca que o aporte financeiro de até R$ 163,2 mil por unidade, viabilizado por recursos públicos, é o que garante a viabilidade operacional do projeto. O valor é utilizado para custear desde o material didático até o deslocamento dos educadores voluntários. “Ter o recurso disponível fortalece a continuidade do trabalho”, explica. Além do suporte institucional, a rede oferece um auxílio-permanência de R$ 200 mensais durante seis meses, benefício que tem sido vital para que jovens como a dançarina Victória Santos, de 16 anos, possam se dedicar exclusivamente aos estudos sem sacrificar a sobrevivência cotidiana.
A dimensão humana dessa rede é amplificada pela presença de psicólogos e apoiadores pedagógicos. Maria Paula Cândida Reis, que atua na ponte entre a grade curricular e a realidade dos alunos, descreve o ambiente como um território de saberes plurais. Já a psicóloga Yasmin Moreira atua diretamente nas rodas de conversa, onde o medo da reprovação e a ansiedade são acolhidos coletivamente. “Nas rodas, eles enxergam uns aos outros e percebem que suas possibilidades são reais, apesar das barreiras”, observa a profissional.
A contagem regressiva para o exame já começou. O Enem 2026 será aplicado nos dias 8 e 15 de novembro. No primeiro domingo, os candidatos enfrentarão cinco horas e meia de prova, abrangendo linguagens, ciências humanas e a redação. No segundo dia, o foco muda para matemática e ciências da natureza. Com a abertura dos portões às 12h e o fechamento rigoroso às 13h, o relógio marcará não apenas o início de uma avaliação, mas a culminância de meses de sacrifícios para milhares de estudantes que, através dos cursinhos populares, voltaram a acreditar na força da educação como ferramenta de mudança social.











