Nova York, Estados Unidos – Sob a bandeira do combate ao narcotráfico, a coalizão Escudo das Américas, encabeçada pelos Estados Unidos, emerge como uma ferramenta de disputa geopolítica voltada a conter o avanço da China na América Latina. O grupo, que reúne 15 nações, formalizou em Nova York, durante a 81ª Assembleia-Geral da ONU, a intenção de levar sua estratégia para o âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA).
A iniciativa, criada em março, inclui nomes como Argentina, Chile, Colômbia e Peru, além de outros Estados regionais. Entre os pontos centrais do documento divulgado pela coalizão está a classificação de 24 organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como grupos terroristas. Para acadêmicos, contudo, a narrativa de segurança esconde um objetivo pragmático: o controle das cadeias de suprimentos de minerais críticos — fundamentais para a indústria de tecnologia e transição energética — e a imposição de barreiras ao capital chinês.
Danilo Enrico Martuscelli, professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), descreve o movimento como uma retomada da tentativa de anexação colonial dos países vizinhos sob a lógica de Washington. O especialista aponta uma contradição flagrante nas ações da Casa Branca, citando o indulto concedido por Donald Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, posteriormente condenado por tráfico de drogas. Segundo Martuscelli, a política de Washington busca exercer controle sobre o “quintal alheio”, sem endereçar as raízes do problema internamente.
A estratégia prevê, ainda, a invocação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), de 1947. Ao buscar uma resolução na OEA, o grupo tenta forçar um alinhamento automático de países que ainda mantêm reserva sobre a iniciativa, como Brasil, México e Uruguai. Para o governo brasileiro, o cenário exige cautela. Em Brasília, a avaliação predominante é que o Escudo das Américas pode servir para legitimar a presença de tropas norte-americanas no continente e pressionar pela adoção de restrições comerciais contra Pequim.
Robson Valdez, professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), destaca que o impacto dessa articulação ultrapassa o campo da segurança. Ao atrelar o combate ao crime a diretrizes de infraestrutura digital e fornecimento de minerais, o Escudo das Américas restringe a autonomia das nações latino-americanas em escolher seus parceiros de defesa e comércio. “Isso sinaliza para a China que a manutenção das suas relações com os países da região teria de ser revista sob a perspectiva da política externa norte-americana”, explica Valdez.
A ofensiva diplomática agora se desloca para a mesa da OEA, onde o Brasil aguarda a apresentação formal dos termos para decidir se apoia ou se afasta das resoluções propostas. Enquanto Washington reforça a narrativa de afastar “influências estrangeiras malignas”, o tabuleiro geopolítico na América Latina ganha contornos de uma Guerra Fria adaptada ao século XXI.










