São Paulo (SP) – A fragilidade do fornecimento de energia diante dos temporais que castigaram São Paulo e Rio de Janeiro na última quarta-feira (29) expôs um dilema estrutural. Para especialistas, a resiliência do sistema depende de investimentos vultosos que, na prática, recaem sobre as concessionárias responsáveis pela distribuição.
Edson Watanabe, do programa de engenharia elétrica da Coppe/UFRJ, aponta que a manutenção negligenciada ou insuficiente da rede aérea é o principal gargalo. A solução definitiva passaria pelo enterramento dos cabos, mas o custo dessa infraestrutura — que pode variar de sete a dez vezes o valor da rede aérea — inibe avanços significativos. Enquanto bairros com instalações subterrâneas atravessam os vendavais com estabilidade, moradores de áreas como o Grajaú, na zona norte carioca, enfrentam quedas constantes devido à vulnerabilidade dos postes diante da queda de árvores.
O professor, que vivenciou na própria rotina a interrupção do serviço, é incisivo: a passividade das empresas diante da necessidade de modernização é o que torna o cenário futuro ainda mais incerto. “Se ficar parado como estamos, vai ser pior”, alerta.
Por outro lado, há quem enxergue a substituição total da rede como uma medida mais estética e urbanística do que técnica. Leandro Torres, especialista em desastres da Escola Politécnica da UFRJ, pondera que fiação subterrânea também enfrenta desafios graves, como alagamentos e riscos de furtos de cabos. Para ele, o foco das companhias deveria ser outro: a criação de planos de contingência rigorosos.
Torres argumenta que o planejamento deve anteceder a crise. Isso significa mapear ameaças, identificar vulnerabilidades na rede e, sobretudo, treinar equipes para responder prontamente a vendavais, inundações ou ondas de calor extremo — cenários que tendem a se intensificar, especialmente com a influência do fenômeno El Niño. “A empresa não pode esperar o evento acontecer para agir”, pontua.
Enquanto o debate técnico avança, o impacto real se materializa na rotina dos consumidores. Na Vila Isabel, a empresária Ana Paula Brito acumula prejuízos com a perda de mantimentos e a falta de previsibilidade da concessionária Light. Em Santa Teresa, o designer Rico Vilarouca relata uma experiência de estagnação recorrente sempre que o clima fecha na cidade. “Não estamos preparados para esse volume de vento”, desabafa.
Oficialmente, tanto a Light quanto a Enel sustentam que equipes seguem mobilizadas para restabelecer os serviços. Contudo, milhares de residências e estabelecimentos permaneceram no escuro durante toda a quinta-feira (30), mantendo viva a interrogação sobre a eficácia da preparação das concessionárias frente a eventos climáticos que, ao que tudo indica, deixaram de ser excepcionais para se tornarem parte da realidade urbana.












