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Sociedade

Nove em cada dez moradores de favelas no Rio rejeitam modelo atual de operações policiais

Por Redação / Diário da Nação
20 de maio de 2026
em Sociedade
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Nove em cada dez moradores de favelas no Rio rejeitam modelo atual de operações policiais

📷 Joédson Alves/Agência Brasil

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Rio de Janeiro (RJ) – A imensa maioria dos moradores de comunidades no Rio de Janeiro reprova o formato das operações policiais baseadas em confrontos armados, uma prática que se tornou rotineira na capital fluminense ao longo dos últimos anos. A conclusão vem de um levantamento inédito que deu voz a 4.080 pessoas residentes em áreas historicamente impactadas pela violência: os complexos do Alemão e da Penha, a Maré, na zona norte, e a Rocinha, na zona sul.

O estudo, coordenado pela diretora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, foi conduzido presencialmente durante o mês de janeiro deste ano. A motivação para a pesquisa reside na necessidade de compreender como o cotidiano das famílias é afetado pela estratégia bélica adotada pelo Estado. Somente no Complexo da Maré, entre 2023 e 2025, foram contabilizadas 92 operações com tiroteios, feridos e mortes, um cenário que forçou os moradores a questionarem a eficácia e a humanidade desse tipo de intervenção.

A rejeição ao modelo de confronto

Os números refletem um descontentamento profundo. Quando questionados sobre o modelo atual de incursões policiais, 92% dos entrevistados manifestaram reprovação. Entre esses, 68% defendem que as ações precisam ocorrer de uma forma completamente diferente, enquanto 24% acreditam que não deveria haver operações policiais nas favelas. Apenas uma parcela ínfima, 20% dos que se dizem favoráveis à presença da polícia, apoia a forma como as intervenções são executadas hoje.

O sentimento de que há excessos e ilegalidades é quase unânime, atingindo 91% dos consultados. Esse incômodo não se restringe aos críticos das operações. Mesmo entre o grupo que apoia o combate ao crime nas favelas, 74% condenam a brutalidade policial. O dado revela uma distinção clara entre a necessidade de segurança pública e a aceitação da violência estatal, desmistificando a ideia de que o morador, por estar exposto ao crime organizado, seria conivente com o uso desproporcional da força.

Impactos no cotidiano e na educação

A vida nas comunidades é pautada por uma constante interrupção de direitos básicos. A restrição de circulação aparece como a consequência mais nefasta, afetando tanto quem discorda das operações quanto aqueles que as apoiam. Quando o blindado entra na rua ou o tiroteio começa, o morador perde a liberdade de ir ao trabalho ou levar os filhos à escola. A invasão de domicílios e veículos, somada ao risco constante de balas perdidas, compõe um cenário onde o direito à cidade é, na prática, suspenso.

O reflexo na educação é um dos pontos mais sensíveis. Em áreas como a Maré, que abriga 140 mil habitantes, a rede de ensino municipal sofre com o fechamento recorrente de escolas. Não é incomum que alunos passem semanas sem aulas, prejudicando o aprendizado e a rotina das famílias. Para a coordenação do estudo, é urgente reconhecer o morador da favela como um sujeito de direitos, e não apenas como um coadjuvante em um campo de batalha.

Medo, racismo e o papel do Estado

O medo da polícia é um fator predominante, superando, em muitos casos, o temor em relação aos grupos criminosos. Cerca de 78% dos moradores admitem sentir medo das forças de segurança durante as operações. O fenômeno é ainda mais curioso quando se observa que, entre os defensores das operações, o medo da polícia (59%) é maior do que o medo dos traficantes (53%). Essa inversão de expectativas mostra que a presença estatal, da forma como é feita, gera insegurança em vez de proteção.

A percepção de que o racismo influencia o planejamento dessas incursões é compartilhada por 61% da população ouvida. O recorte racial mostra que a discordância com o modelo atual chega a 81% entre pessoas pretas. Além disso, a juventude entre 18 e 29 anos é o grupo que mais se opõe às operações, o que reflete a exposição direta desse público à violência e o histórico de criminalização que recai sobre os jovens moradores dessas regiões.

O cenário eleitoral e o futuro

Em um ano eleitoral, a segurança pública ocupa o centro dos debates, mas Eliana Sousa Silva alerta para a necessidade de cautela. Candidatos frequentemente propõem a destruição de grupos armados como única solução, ignorando o impacto dessas promessas na vida real dos moradores. A crítica se estende ao uso de verbas públicas: em vez de investimentos em políticas sociais que garantiriam acesso a direitos, o dinheiro é direcionado para a compra de mais armas e fuzis para a polícia.

A pesquisa reforça que não existe solução mágica para o enfrentamento ao crime organizado se o problema for tratado de forma isolada, focada apenas na favela. Enquanto a visão sobre esses territórios for pautada pela criminalização e pelo confronto, o morador continuará sendo a principal vítima. O desafio, agora, é fazer com que a voz dessas 4.080 pessoas seja ouvida por quem detém o poder de formular as políticas de segurança e, finalmente, entender que a paz não se constrói com mais violência.

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