Rio de Janeiro (RJ) – O registro da dor profunda diante da tragédia rendeu ao fotógrafo Tomaz Silva, profissional da EBC, o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos deste ano. A imagem, que percorreu jornais e portais de notícias no Brasil e no exterior, documenta o instante em que Fernanda da Silva Martins se despede do marido, uma das vítimas da Operação Contenção, deflagrada no Complexo da Penha em outubro de 2025.
A comissão julgadora da premiação foi enfática ao reconhecer a obra. Para os jurados, a fotografia transpõe a frieza dos números e alcança a dimensão emocional do luto na comunidade, cumprindo o papel de evidenciar as sequelas humanas deixadas pela ação policial.
Ao recordar o 28 de outubro de 2025, Tomaz descreve um cenário de devastação. Ele chegou ao local por volta das 7h, encontrando o rastro deixado pelo confronto. Com o passar das horas, dezenas de corpos foram alinhados no asfalto pelos próprios moradores. O fotógrafo relata que, diante da impossibilidade de ignorar aquele sofrimento coletivo, optou por mudar seu ângulo de visão. Ele se abaixou para focar na humanidade das pessoas enlutadas em vez de registrar apenas a escala da morte. Foi nesse momento, ao encostar involuntariamente em uma das vítimas, que a sensibilidade da cena o atingiu, levando-o às lágrimas enquanto trabalhava.
A repercussão do prêmio trouxe um sentimento de renovação para o autor. Para ele, o reconhecimento chancela a importância da comunicação pública em um país que ainda precisa enfrentar realidades brutais. Meses após a publicação, a própria Fernanda, em reencontro com o fotógrafo, reconheceu o valor da imagem: “Ali, sentiram a minha dor”, pontuou a mulher, que se tornou um símbolo involuntário das vítimas indiretas da operação.
A Operação Contenção, marcada pelo medo para os 150 mil habitantes dos complexos da Penha e do Alemão, culminou em 122 mortes oficiais, incluindo três policiais civis e dois militares. A magnitude do evento paralisou o cotidiano de diversos bairros da capital fluminense sob o som constante de tiros e explosões.
A vitória no prêmio, que desde 1979 honra a memória do jornalista Vladimir Herzog — assassinado pela ditadura militar em 1975 —, foi celebrada pela cúpula da EBC. Antonia Pellegrino, presidente da empresa, ressaltou que a premiação reforça a vocação do jornalismo público: lançar luz sobre as dores que a sociedade frequentemente tenta esconder ou ignorar. Além de Tomaz Silva, a 48ª edição da premiação também laureou o programa Caminhos da Reportagem, reafirmando o compromisso das equipes com a defesa dos direitos humanos, da democracia e do rigor informativo em contextos de crise.












