Belém (PA) – Belém perdeu nesta terça-feira, dia 8, uma das figuras mais emblemáticas do pensamento crítico na Amazônia. Aos 74 anos, a professora emérita Zélia Amador de Deus faleceu, deixando uma trajetória marcada pela militância incansável e pelo rigor científico voltado às ciências sociais. Sua marca na Universidade Federal do Pará (UFPA), onde atuou como vice-reitora entre 1993 e 1997, transcendeu as salas de aula para moldar políticas de equidade que perduram até hoje.
A ligação da pesquisadora com a instituição ganhou um contorno simbólico em 18 de agosto, quando foi homenageada com o plantio de um baobá no campus. Na ocasião, visivelmente emocionada, ela definiu a árvore como um elo entre a ancestralidade e a memória coletiva. Não era apenas um gesto protocolar, mas o reconhecimento de uma carreira que pavimentou o acesso de grupos historicamente marginalizados ao ensino superior, incluindo a luta decisiva pelas cotas raciais e pelos processos seletivos voltados especificamente para populações quilombolas.
A origem de Zélia remete ao arquipélago do Marajó, em Soure, onde nasceu em 1951. Filha de uma mãe solo adolescente e neta de trabalhadores rurais que migraram para a periferia de Belém em busca de sobrevivência, ela enfrentou desde cedo o preconceito em escolas públicas. Foi com a avó, lavadeira, que aprendeu a lição de nunca baixar a cabeça — um conselho que traduziu em presença constante e altivez, seja na academia ou na fundação do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa).
A notícia de seu falecimento gerou uma onda de homenagens. Para a historiadora Janira Sodré, Zélia não apenas produziu saber, mas ensinou uma nova maneira de enxergar o Brasil, conferindo protagonismo às mulheres da Amazônia Negra. O atual reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, recordou a humanidade que a professora mantinha em paralelo ao seu peso institucional, descrevendo-a como um símbolo que nunca se distanciou das relações interpessoais e do cuidado com o próximo.
O impacto de sua atuação é sentido por gerações de pesquisadores e estudantes. Jonas Pinheiro, professor da área de educação, resume esse sentimento ao afirmar que a cientista foi a responsável por abrir as portas para que negros, indígenas e povos tradicionais ocupassem a universidade, respeitando seus saberes ancestrais. A artista Gaby Amarantos também se manifestou, agradecendo pela transmissão de ensinamentos que, agora, permanecem como lastro para quem segue sua trilha.
Receber o título de professora emérita de Antropologia e Ciências Sociais em 2019 foi apenas um dos reconhecimentos formais de uma carreira dedicada a combater o racismo estrutural. O baobá plantado em agosto segue na universidade, agora como um monumento vivo à memória de quem dedicou a vida a garantir que a voz da periferia ecoasse nos espaços de poder e produção de conhecimento.












