Brasília (DF) – Mais de 116 mil pacientes com diagnóstico oncológico passam a ter acesso a terapias mais modernas na rede pública. O Ministério da Saúde deu início à distribuição de nove remédios de alta tecnologia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), cobrindo a totalidade da demanda nacional para 13 indicações terapêuticas diferentes. Trata-se da expansão mais expressiva já registrada na oncologia pública brasileira.
A distribuição começou de forma simultânea em 20 centros especializados distribuídos pelo Distrito Federal e por 16 estados: Bahia, Ceará, Goiás, Amazonas, Minas Gerais, Paraíba, Pará, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Sergipe, São Paulo, Tocantins e Pernambuco. O objetivo é alcançar todas as unidades credenciadas do país até o encerramento deste ano.
Apenas a aquisição desses nove itens exige um aporte anual de R$ 155,4 milhões. O plano completo, no entanto, é mais ambicioso: a meta prevê incorporar 23 novos remédios oncológicos ainda este ano, ampliando as alternativas terapêuticas do SUS em 35%. Para viabilizar esse salto com impacto orçamentário anual de R$ 4 bilhões, o governo assumiu a compra direta de dez compostos, estruturou uma ata de preços para que os estados adquiram outros nove com desconto e reforçou repasses para custear os quatro restantes nos hospitais credenciados.
Drogas incorporadas e atuação clínica
A lista de remédios que chegam aos hospitais atua em diferentes frentes da evolução tumoral:
— Trastuzumabe: tumores de estômago ou da transição esofagogástrica.
— Abemaciclibe: estágio inicial do tumor de mama (RH+, Her2-, linfonodo +).
— Acetato de lanreotida: lesões neuroendócrinas.
— Pazopanibe e sunitinibe: carcinoma renal de células claras metastático (o sunitinibe contempla também casos avançados de tumor estromal gastrointestinal após falha terapêutica do imatinibe).
— Rituximabe: leucemia linfocítica crônica em primeira linha, além de linfomas folicular e difuso.
— Abiraterona: tumor de próstata com ou sem metástase, resistente ou sensível ao bloqueio hormonal.
— Gefitinibe: primeira abordagem em câncer pulmonar de não pequenas células.
— TSH recombinante (alfatirotropina): câncer diferenciado de tireoide elegível a iodo radioativo.
Parte dessas substâncias busca conter metástases e elevar a sobrevida com qualidade; outras entram no pós-operatório imediato, reduzindo as chances de recidiva tumoral.
Diagnóstico precoce e cirurgias avançadas
A intervenção pública também avança na detecção precoce. O ministério enviará 400 mil testes imunoquímicos fecais (FIT) a todos os estados para rastreamento de câncer colorretal. Voltado a indivíduos assintomáticos de 50 a 75 anos, o procedimento tem precisão de 92% e seleciona quem realmente precisa passar por colonoscopia.
Na saúde da mulher, avança o rastreio cervical com tecnologia DNA-HPV, complementado pela citologia reflexa em meio líquido — estratégia que aproveita uma única coleta e terá aporte anual de R$ 2,7 milhões para mais de 131 mil análises. Ao mesmo tempo, o SUS passa a financiar cirurgias videotorácicas oncológicas, técnica minimamente invasiva focada sobretudo em tumores pulmonares, encurtando o pós-operatório e o tempo de internação.
A reestruturação envolve ainda a renovação do Proadi-SUS, que receberá R$ 4 bilhões no próximo triênio em parceria com hospitais filantrópicos de referência, e a criação do primeiro Hospital Inteligente do SUS, sediado no complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O projeto piloto usará equipamentos conectados em unidades de terapia intensiva e inteligência artificial para monitoramento médico a distância, além de integrar telediagnóstico patológico para emitir laudos de biópsia em até 48 horas.












