Iúna (ES) – A democratização de shows, exposições e cinemas aparece no topo da lista de desejos dos brasileiros para a gestão pública. Dados levantados pela pesquisa Hábitos Culturais, divulgada nesta quarta-feira (14), indicam que 42% da população deseja que a oferta gratuita de atividades seja o foco prioritário de quem assume o poder. O número reflete uma urgência por políticas que superem um abismo de desigualdade evidente nos registros: enquanto a quase totalidade das classes A e B (97%) conseguiu participar de ao menos um evento presencial no último ano, esse índice recua entre os brasileiros das classes D e E.
O recorte do cinema ilustra bem essa distância. Enquanto 63% dos mais ricos frequentaram salas de exibição nos últimos doze meses, apenas 18% dos integrantes das faixas D e E tiveram a mesma experiência. A falta de equipamentos culturais na região de moradia, citada por um terço dos entrevistados, agrava o cenário, mas o entrave é também de ordem prática: o custo elevado dos ingressos e do transporte dita o ritmo do consumo cultural no país.
A pesquisa mostra que o orçamento mensal dedicado ao lazer é limitado para a maioria. Quase metade dos frequentadores de eventos (46%) destina até R$ 100 por mês para essas atividades. Quando o dinheiro não é o principal problema, o medo toma o lugar. A violência aparece como a segunda barreira mais comum, afastando 30% das pessoas. O temor de assaltos e furtos, tanto no local quanto no trajeto, é uma preocupação constante, mas há um agravante específico: o receio com assédio e violência contra a mulher, que atingiu 27% das menções, um salto significativo de seis pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.
Apesar da Constituição Federal garantir o acesso à cultura como um direito fundamental, a clareza sobre essa prerrogativa ainda é desigual. Cerca de um terço da população sequer sabe da existência dessa garantia constitucional, e uma parcela considerável admite não compreender o conceito de direito cultural. O desejo popular é nítido: além da gratuidade, a criação de novos museus, teatros e espaços públicos, além da reforma dos existentes, lidera as demandas.
A 7ª edição do estudo, realizada pelo Observatório da Fundação Itaú em parceria técnica com o Datafolha, ouviu 2.448 pessoas de 16 a 65 anos entre 7 e 20 de julho de 2026. O mapeamento deixa claro que a falta de participação nas artes não é uma questão de gosto ou valorização pessoal, mas um reflexo direto de barreiras socioeconômicas, estruturais e de segurança que impedem o cidadão de exercer sua cidadania plena.












