Catalunha, Espanha – Rodado em 1970 sob os fortes ventos da Catalunha, o longa-metragem Cabeças Cortadas — descrito pelo próprio autor como um encontro entre o teatro e a poesia — voltará ao público em versão restaurada em 4k. O anúncio marca um esforço da indústria cinematográfica espanhola em resgatar uma obra que sintetiza a angústia de um ditador à beira do abismo, figura que Glauber Rocha moldou mesclando traços de déspotas latino-americanos com a sombra de Francisco Franco.
O projeto de recuperação digital é uma colaboração entre a Escola de Cinema de Madrid (Ecam), a Video Mercury Films e a FlixOlé. A iniciativa pretende tirar do ostracismo um filme classificado pelos realizadores como uma joia rara, historicamente inacessível ao público. A nova cópia trará tratamento completo de imagem, som e correções de cor, devolvendo a nitidez necessária para que novas plateias apreciem a visão política e estética de um dos expoentes do Cinema Novo Brasileiro.
Na trama, o personagem central Diaz II, vivido pelo ator espanhol Francisco Rabal, protagoniza sequências memoráveis. Em um momento emblemático, o tirano questiona fenômenos climáticos e chega a gabar-se de já ter extinguido vulcões, ao mesmo tempo em que articula manobras políticas para manter seu poder. A narrativa, feita durante o exílio de Glauber, reflete o combate do cineasta contra a perseguição do regime militar no Brasil e o imperialismo.
Para Cavi Borges, diretor e crítico de cinema, o retorno do filme é um contraponto necessário ao cenário atual. Enquanto o mercado global é monopolizado por grandes produções de streaming que ignoram a autoria, a restauração desta obra clássica reitera a importância de um cinema anti-imperialista. Borges defende que o acesso das novas gerações a produções de caráter experimental e engajado é fundamental para manter viva a pluralidade do pensamento cinematográfico.
A produção de 1970, marcada pela liberdade criativa e pelo improviso que guiavam o olhar de Glauber, agora conta inclusive com um espaço dedicado na internet. O site do projeto reúne depoimentos de quem esteve no set, imagens de bastidores e reflexões sobre a linguagem não convencional da obra. Glauber Rocha, que morreu em 1981, sempre insistiu que Cabeças Cortadas não deveria ser consumido como um entretenimento comercial, mas sentido como um poema ou uma exposição de arte.
O lançamento da versão restaurada está previsto para 2027, quando o falecimento do cineasta completará 46 anos. A restauração não apenas preserva um registro histórico, mas oferece uma nova chance para o público decodificar o enigma que o próprio Glauber definiu como um filme do Terceiro Mundo sobre o Terceiro Mundo.












