Salvador (BA) – A transformação social pelo ritmo, iniciada no subúrbio ferroviário de Salvador há mais de quatro décadas, ecoou nos debates do Festival Latinidades, em Brasília. No centro dessa história está Vera Lacerda, professora e historiadora baiana de 79 anos que, em março de 1980, transformou sua indignação contra a desigualdade na periferia de Periperi na semente do bloco e instituto Ara Ketu. O projeto, criado ao lado do primo Augusto César — falecido em 2016 —, nasceu para ser muito mais do que uma atração de Carnaval.
O nome escolhido para a agremiação faz referência a Ketu, cidade no Benin de onde partiu grande parte dos negros escravizados para o Brasil. Para Vera, a música tornou-se uma ferramenta de resgate histórico e inclusão social. Mais de 3 mil jovens já passaram pelos cursos profissionalizantes promovidos pela instituição, encontrando alternativas ao tráfico de drogas e à marginalidade. Essa trajetória rendeu à professora o título de comendadora pela Academia Brasileira de Letras, embora ela considere que o verdadeiro prêmio seja o telefonema de ex-alunos agradecendo pelas oportunidades de trabalho conquistadas.
A força feminina no Pelourinho
O legado de Vera serve de inspiração para outras iniciativas de resistência cultural na Bahia. É o caso do Didá, bloco afro exclusivamente feminino que atua na comunidade do Pelourinho. Sob a liderança de Débora Souza, de 48 anos, a agremiação utiliza o tambor como instrumento de reivindicação e liberdade. Débora, que assumiu a presidência do grupo em 2009, é filha do fundador Neguinho do Samba.
Mais de 5 mil mulheres já integraram o Didá, encontrando no espaço um caminho de emancipação coletiva. O batuque ali funciona como voz política e afirmação de identidade, fortalecendo a autoestima de moradoras da periferia soteropolitana.
Conexão com o Planalto Central
A potência desses movimentos baianos reverbera diretamente em outras capitais brasileiras. Durante o encontro em Brasília, a cantora e produtora de rádio Denise Oliveira relatou como a existência do Ara Ketu e do Didá moldou sua própria trajetória na periferia de São Sebastião, no Distrito Federal. Aos 15 anos de idade, foi por meio da arte que ela se reconheceu como mulher negra e trabalhadora da cultura.
Denise, que também construiu carreira no samba, idealizou de forma voluntária o projeto independente “Vozes da Diversidade”, voltado para entrevistar artistas periféricos locais. A iniciativa garantiu a ela uma indicação ao prêmio WME da Billboard em 2024, que celebra o protagonismo feminino na música. Para a comunicadora, o papel histórico das mulheres na base dos blocos afros é o verdadeiro motor de transformação das periferias nacionais.







































































































