Brejetuba (ES) – O cenário é alarmante e os números não permitem interpretações otimistas. Em 2023, o Brasil contabilizou 1.571 vítimas de feminicídio, uma média de quatro mulheres assassinadas diariamente por motivações de gênero. Para cada caso fatal, outros três episódios de tentativa foram registrados. Diante desse quadro, a Rede Justiça Criminal lançou a iniciativa Vote Segura, um esforço para pautar a segurança feminina no Legislativo com recomendações práticas para quem almeja uma cadeira no Congresso Nacional.
A estratégia vai além do discurso. O projeto organizou um guia voltado para subsidiar planos de mandato e projetos de lei, tentando qualificar um debate que, muitas vezes, perde-se em medidas puramente retóricas. O público-alvo dessa articulação política é expressivo: as mulheres compõem 51,5% de uma população estimada em 213,4 milhões de pessoas. Ignorar essa demanda não é apenas uma falha ética, é um descompasso com a realidade demográfica do país.
O documento lista 11 recomendações fundamentais para os próximos parlamentares. Entre os pontos, a necessidade de priorizar a prevenção sem abrir mão da responsabilização dos agressores, a estruturação de políticas de estado — e não apenas de governo — e o fortalecimento da coordenação entre estados e municípios. A cartilha sugere ainda que as decisões políticas sejam balizadas por dados concretos e que a transparência seja um pilar inegociável na gestão dos recursos públicos destinados ao setor.
Há uma crítica implícita na metodologia proposta: evitar o que o grupo chama de respostas legislativas exclusivamente simbólicas. O guia defende que as ações devem ter impactos mensuráveis, monitoramento constante e uma abordagem baseada em direitos humanos, garantindo que o acesso a verbas siga critérios técnicos e objetivos.
Janine Salles de Carvalho, coordenadora executiva da Rede Justiça Criminal, observa que o medo transformou o cotidiano das brasileiras. A rotina é moldada por uma vigilância constante — o compartilhamento de localização em tempo real, a cautela ao caminhar pelas ruas, a alteração de trajetos. Essa insegurança, que dita o comportamento privado, também se converteu em uma variável dentro do jogo eleitoral.
O alerta da coordenadora é claro quanto aos limites da resposta estatal tradicional. Embora o medo seja um ativo capaz de mobilizar votos, a solução não passa necessariamente por um aumento indiscriminado do efetivo policial ou do encarceramento. Para Carvalho, o foco precisa ser deslocado para o que ela define como o impedimento da violência antes de sua consumação. A aposta é que, ao municiar os candidatos com diretrizes técnicas e baseadas em evidências, a política possa finalmente oferecer algo além da promessa vazia, entregando mecanismos reais de proteção para quem hoje vive sob ameaça constante.












