Brasília (DF) – A sabatina do candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, transmitida pela TV Globo na noite de sexta-feira (16), foi marcada por declarações sobre os atos de 8 de janeiro, propostas para a economia e justificativas sobre suas relações políticas e financeiras. Ao longo de 40 minutos, o atual senador buscou equilibrar acenos ao eleitorado de centro com a defesa contundente do espólio de seu pai, Jair Bolsonaro.
Questionado sobre as invasões aos prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, o parlamentar negou a tese de tentativa de golpe de Estado. Ele classificou como “farsa” a condenação a 27 anos de prisão imposta ao ex-presidente e minimizou os acontecimentos ao citar a presença de uma “senhora com Bíblia” nos atos. Sobre a formação de uma eventual equipe de governo, Flávio descartou nomear seu irmão Eduardo Bolsonaro para o Ministério das Relações Exteriores. Eduardo vive atualmente nos Estados Unidos e responde a uma condenação na Justiça brasileira por coação no curso do processo, relacionada à defesa de sanções comerciais americanas contra o Brasil. O candidato também afirmou que não debateu cargos executivos com o pai, a quem já prometeu conceder indulto.
Mudanças trabalhistas e segurança pública
Em relação às pautas de trabalho, o senador alterou o discurso recente e defendeu o fim da jornada 6×1, medida aprovada e promulgada no Senado esta semana. Segundo ele, a decisão de votar a favor da mudança veio após ouvir trabalhadores em diversas regiões do país. O candidato assegurou ainda que preservará a legislação trabalhista existente e que defende a flexibilidade de horários.
Na área da segurança, Flávio prometeu classificar as facções Comando Vermelho e PCC como organizações narcoterroristas, sem detalhar os mecanismos práticos da medida. Manteve a defesa do acesso ampliado a armas por cidadãos e evitou responder sobre o projeto que busca eliminar a marcação de cápsulas de munição das forças policiais — recurso fundamental no rastreamento de armas e munições desviadas. Ao abordar a proximidade com os políticos fluminenses Rodrigo Bacellar e Márcio Canella, investigados por ligações com o Comando Vermelho, disse ter sido pego de surpresa e declarou que a Justiça deve punir eventuais culpados, assegurando o direito de defesa.
Investigações, dados ambientais e plano de governo
O senador também respondeu sobre o repasse de aproximadamente R$ 60 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro — hoje preso por suspeita de fraudes no Banco Master — destinados ao financiamento do filme Dark Horse, projeto em que buscou captar até R$ 130 milhões. Flávio afirmou que os contatos ocorreram quando não havia irregularidades conhecidas, mas não explicou os motivos de ter mantido a cobrança dos recursos mesmo após a eclosão das denúncias contra a instituição financeira.
Em outro trecho, atribuiu ao governo atual o recorde de queimadas na Amazônia para o mês de outubro. No entanto, o monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), realizado desde 1989, contabilizou 9.544 focos de calor até 15 de outubro, patamar que permanece distante dos recordes históricos.
Com 23 anos de carreira política divididos entre mandatos de deputado estadual e senador, o candidato de 45 anos prometeu apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para banir a reeleição presidencial a partir do próximo mandato, cabendo ao Congresso definir a duração da gestão. A proposta inclui proibir a candidatura subsequente de parentes até o terceiro grau. No campo fiscal, indicou a intenção de cortar mais de R$ 200 bilhões da dívida pública vendendo imóveis da União e projetou arrecadar R$ 100 bilhões com a exploração de petróleo na margem equatorial — atividade que a Petrobras estima iniciar apenas a partir de 2033. Prometeu também fechar pelo menos dez ministérios e rebateu dados sobre o funcionalismo, alegando que seu pai reduziu cargos comissionados, embora balanços oficiais apontem um crescimento dessas contratações de 31,8 mil para 46,2 mil entre 2019 e 2022.
Bastidores na emissora
Pouco antes da transmissão, Flávio Bolsonaro esteve em um almoço com o presidente do Grupo Globo, José Roberto Marinho, e com o vice-presidente de Relações Institucionais da empresa, Paulo Tonet. A emissora confirmou o encontro, classificando-o como uma visita de cortesia recorrente entre executivos e presidiáveis, sem a participação da equipe de jornalismo. O compromisso gerou insatisfação no candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entrevistado na quarta-feira (14) sem reunião prévia com a diretoria do canal.












