Venda Nova do Imigrante (ES) – O cenário político brasileiro, marcado pela proximidade do segundo turno das eleições, forçou uma reocupação estratégica das ruas por parte dos estudantes. Universidades e escolas secundaristas, tradicionalmente pontos de ebulição da sociedade civil, tornaram-se palcos de manifestações que mesclam a defesa da democracia com a preocupação explícita quanto ao futuro do ensino público. A União Nacional dos Estudantes (UNE) lidera o movimento, retomando um histórico de ativismo que atravessou décadas de turbulência nacional.
Bianca Borges, presidente da UNE para o biênio 2025–2027, observa que a atual mobilização ultrapassa a simples preferência partidária. A estudante de letras, que construiu sua trajetória política em grêmios escolares e diretórios acadêmicos como o da USP, sustenta que o risco de ascensão de um governo com traços autoritários exige prontidão. Para ela, o “bolsonarismo” — representado no pleito por Flávio Bolsonaro — não é um conceito teórico, mas uma ameaça direta às instituições universitárias.
A tensão que emana dos diretórios centrais de estudantes tem razões práticas. Além da pauta democrática, o movimento aponta o subfinanciamento crônico das universidades e a urgência de garantir a permanência de alunos de baixa renda. A proposta de Flávio Bolsonaro de transferir a gestão das universidades federais do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) é vista pela entidade como uma tentativa de subordinar o ensino superior aos interesses exclusivos do setor produtivo, esvaziando o papel social e crítico da universidade.
O histórico de confrontos com o governo Jair Bolsonaro e a memória da ditadura militar alimentam o ímpeto dos manifestantes. Em atos recentes, como o ocorrido no centro do Rio de Janeiro no início de outubro, estudantes evocaram a memória da Passeata dos 100 mil, traçando paralelos entre as lutas de 1968 e o momento atual. A violência política, expressa em ameaças a campi universitários, é tratada como um sinal de alerta sobre a fragilidade dos espaços de debate.
O perfil da liderança da UNE reflete a diversidade do movimento. Com 25 anos, a paulista de Itapevi consolidou sua atuação na resistência contra as políticas do governador Tarcísio de Freitas em São Paulo antes de chegar à presidência da entidade. Sua visão, alinhada à do movimento estudantil, busca não apenas influenciar a eleição, mas manter uma estrutura permanente de cobrança. O desafio, admite ela, é engajar aqueles que se sentem desconectados da política institucional, aproximando o debate acadêmico das necessidades imediatas da classe trabalhadora, como a pauta pelo fim da jornada 6×1.
Enquanto o clima de embate toma conta das assembleias estudantis, o Poder Judiciário mantém uma postura de contenção. O ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), barrou recentemente uma tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de censurar publicações de dezenas de entidades sindicais e estudantis. A decisão preserva, por ora, a liberdade de organização dessas frentes.
A pauta de exigências do movimento é vasta: da consolidação do Plano Nacional de Assistência Estudantil à aplicação dos 10% do PIB na educação. A aposta no governo Lula, apesar das críticas internas da esquerda, é apresentada como o único caminho possível para a manutenção de canais de diálogo e ampliação de direitos. A ideia é que, sob a gestão atual, existe o espaço para a divergência e a reivindicação, algo que a entidade acredita estar em xeque caso o projeto bolsonarista prevaleça nas urnas.
Para além das cédulas, a estratégia da UNE é a perenidade. Bianca Borges reforça que, independentemente do resultado final em 25 de outubro, a rede de centros acadêmicos e grêmios não deve se dispersar. A convicção é de que a educação, para ser um motor de dignidade, depende do ativismo coletivo. O desafio posto à juventude, segundo a entidade, é converter a atual indignação em uma estrutura capaz de sobreviver às variações dos ciclos eleitorais e aos diferentes governos que ocupam Brasília.












