Rio de Janeiro (RJ) – O fotógrafo Marlon Soares quase desistiu de exercer sua cidadania no dia 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições gerais. Morador do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, ele integrou um grupo de quase 17 mil eleitores da região que tiveram os locais de votação alterados em relação ao pleito municipal de 2024. O deslocamento para bairros vizinhos resultou em longas filas e gastos com transporte.
A decisão partiu do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) e alcançou 72 endereços em 20 cidades do estado, atingindo cerca de 202 mil pessoas. A medida teve como justificativa retirar as seções de áreas consideradas de alto risco ou sob influência do crime organizado, transferindo os postos para locais fora do domínio do tráfico ou de milícias e o mais próximo possível das antigas zonas.
Especificamente no Complexo da Maré, 16.907 eleitores distribuídos em 41 seções da 161ª Zona Eleitoral foram realocados. Entre as mudanças, 7.268 pessoas que votavam na Escola Municipal Professor Josué de Castro passaram a se dirigir ao Centro Educacional Gama E Souza. Outros 4.907 eleitores da Escola Municipal Teotônio Vilela foram direcionados ao Bonsucesso Futebol Clube, enquanto 4.732 votantes da Escola Municipal Professor Paulo Freire migraram para a Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso de Inhaúma. Para o segundo turno, marcado para o próximo domingo (25), apenas um endereço sofre alteração em todo o estado, em Brás de Pina.
O impacto prático dessa reestruturação gerou reclamações de moradores como Rejane Barcelos, residente na Vila do João. Habituada a votar perto de casa, ela foi designada para uma igreja em outra localidade sem cobertura adequada de transporte público. Sob sol forte, enfrentou tumulto e filas extensas.
Levantamento fundamentado nos Boletins de Urna apontou que a abstenção nas 41 seções mareenses remanejadas alcançou 31,07%, índice superior à média nacional de 21,08%. O patamar também superou o registro de 2024 na mesma área, que ficou em 28%, somando meio eleitorado local afetado por mudanças em quatro anos.
Um estudo produzido pela organização não governamental Redes da Maré pontuou que o cenário evidencia barreiras de acesso geradas pelas novas rotas. A instituição destacou que a necessidade de cruzar vias expressas como a Avenida Brasil e a Linha Amarela, somada à escassez de condução e à saída do território, prejudica desproporcionalmente idosos, pessoas com deficiência, mulheres chefes de família e jovens. Em resposta aos argumentos sobre gratuidade tarifária e oferta de vans adaptadas para mobilidade reduzida — serviço que o TRE afirmou não ter tido demanda —, a entidade argumenta que a gratuidade perde efeito quando os modais não atendem efetivamente as comunidades.
Para reverter o quadro e estimular a participação no segundo turno exclusivo para a presidência, a Redes da Maré promove entre terça-feira (20) e sexta-feira (23) a mobilização Esquinas por Direitos. O trabalho consiste em orientar a população nas ruas e por aplicativos de mensagens sobre a regularidade do título e a localização correta dos novos endereços, reforçando a importância do voto para a coletividade do território.












