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Natureza

Projeto usa DNA ambiental para mapear fauna marinha no sul da Bahia

Por Redação / Diário da Nação
16 de maio de 2026
em Natureza
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Projeto usa DNA ambiental para mapear fauna marinha no sul da Bahia

📷 Mapeamento da fauna marinha. Robert Sforza/Divulgação

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Guarapari (ES) – Uma nova etapa do Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), desenvolvido pelo Instituto Tecnológico da Vale (ITV), vai usar amostras de água para identificar espécies da fauna marinha no sul da Bahia. A coleta acontece em reservas extrativistas, com foco em áreas onde o conhecimento local e as atividades de pesca e extrativismo fazem parte da rotina.

O trabalho adota uma técnica mais recente: o DNA Ambiental metabarcoding. Em vez de capturar organismos, os pesquisadores analisam o material genético deixado no ambiente — como ocorre na própria água — para identificar, ao mesmo tempo, diferentes espécies presentes naquele contexto.

A pesquisa é coordenada pelo Centro Tamar/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com as Reservas Extrativistas (RESEXs) de Corumbau e Cassurubá. Para a coordenadora do GBB pelo ICMBio, Amely Branquinho Martins, a lógica do método está no rastro: “Todo animal que passa por um ambiente deixa pedacinhos de pelo, de escama, de fezes ou de urina que contém o seu DNA. Vários animais passando por aquele ambiente vão deixando rastros de sua passagem e, dentro desse rastro, temos as moléculas de DNA. Quando a gente pega essa amostra, sequenciamos todo o DNA [dessa amostra] e o comparamos com os bancos de dados de referência. E, a partir daí, conseguimos identificar as espécies”, explicou.

Pontos de coleta e análise em laboratório

No projeto-piloto em desenvolvimento no sul da Bahia, as equipes recolheram amostras de água do mar em 20 pontos da Reserva Extrativista de Corumbau. Já na Reserva Extrativista de Cassurubá, foram registradas amostras em dez pontos nas porções estuarina e marinha.

A escolha desses locais levou em conta as espécies de interesse e os locais de pesca e extrativismo usados pelos beneficiários das RESEXs. Também foram consideradas áreas relevantes para conservação de espécies ameaçadas e a possível presença de espécies exóticas invasoras, conforme explicou o analista ambiental do ICMBio Roberto Sforza.

As coletas ocorreram em março. Depois, as amostras passaram por filtragem e conservação antes de serem transportadas para o laboratório do ITV, em Belém (PA). No local, o DNA será extraído, analisado e sequenciado.

O objetivo não se limita a listar quais tipos de fauna marinha aparecem ali. A iniciativa também busca contribuir para a detecção de espécies ameaçadas, exóticas e invasoras dentro dessas áreas protegidas. Entre os animais previstos no mapeamento estão peixes e invertebrados de interesse social e econômico para as populações das RESEXs — com atenção especial a espécies ameaçadas de extinção, como os budiões.

Sforza citou ainda que o levantamento deve incluir animais que são alvo de pescaria, como peixes recifais, camarões, moluscos e caranguejo-uçá. A lista também contempla possíveis invasores, como peixe-leão e coral sol.

Como funciona o DNA Ambiental

Uma das vantagens apontadas do DNA Ambiental é a capacidade de identificar múltiplas espécies simultaneamente, sem precisar capturar os organismos. “Por não necessitar isolar e capturar os organismos, essa abordagem é considerada uma alternativa não invasiva para estudos de biodiversidade. O eDNA metabarcoding também tem se mostrado complementar aos métodos tradicionais de identificação de espécies, em alguns casos superando limitações destes e permitindo o registro de espécies raras ou de hábitos elusivos, requerendo menos esforço e tempo para a obtenção das amostras”, disse Sforza.

Para isso, bastam amostras do ambiente — que podem ser retiradas da água, do solo e do ar. “O DNA ambiental é muito variável. Praticamente, tudo que você vê num ambiente, como folha, solo, tronco e ar, tem como coletar [o DNA]”, afirmou Alexandre Aleixo, pesquisador e coordenador do GBB pelo ITV.

Segundo Aleixo, a coleta segue protocolo e não exige conhecimento prévio específico além do procedimento. “A gente coloca luvas, máscaras e saímos com um tubo na mão, coletando água nos rios e igarapés, mas também no solo, com pinça. Também há equipamentos especiais que sugam o ar”, contou.

Ele ainda fez uma comparação com a ideia do filme Jurassic Park — “Outra técnica conhecida é a do filme Jurassic Park, [de retirar o] genoma do dinossauro dentro da barriga de um mosquito. A gente também faz isso, só que não com dinossauros”, brincou. “Pegamos mosquitos e, a partir do sangue que foi ingerido por eles, é possível identificar e saber se eles estão com o sangue de anta ou de capivara, por exemplo”, explicou.

No entendimento do coordenador do GBB, o trabalho só acontece porque todo ser vivo deixa rastros. “Não são só os vírus que se espalham quando a gente espirra ou urina, mas também o DNA vai junto. A gente está o tempo todo emitindo partículas de DNA que vão para o ambiente. E estando no ambiente, podemos capturá-lo, isolá-lo e sequenciá-lo”, afirmou.

Com as amostras coletadas no sul da Bahia, os pesquisadores pretendem determinar as espécies presentes no ambiente, inclusive aquelas de difícil detecção, como animais noturnos ou raros. “O DNA ambiental encurta um pouco o caminho para a detecção dessas espécies”, completou Aleixo.

GBB: sequenciamento e dados para conservação

Em funcionamento desde 2023, o GBB é descrito como a maior iniciativa de sequenciamento genômico da biodiversidade já realizada no Brasil. O projeto busca gerar dados genéticos e genômicos de espécies ameaçadas de extinção, exóticas, endêmicas ou de interesse econômico, com potencial para apoiar renda ligada à bioeconomia.

A proposta é usar esse mapeamento para orientar a conservação e o uso sustentável da biodiversidade brasileira. “Ao conhecer todo o mapa genético de uma espécie, conseguimos, a partir dali, desenvolver aplicações seja para a conservação seja para [o desenvolvimento] de novos produtos”, explicou Aleixo.

De acordo com Amely, o GBB trabalha hoje com dois eixos: genômica para conservação e código de barras, que envolve a geração de marcadores genéticos e o DNA Ambiental metabarcoding. “Até o momento, mais de 40 genomas de referência foram gerados e esperamos que, até o final do projeto, tenhamos pelo menos 80 espécies da biodiversidade brasileira, com foco principal em espécies ameaçadas”, disse a coordenadora.

Ela citou que, entre os genomas mais informativos, já foram gerados dados de onça, arara-azul, anta, ararajuba, queixada e do próprio açaí. Além disso, Amely afirmou que já foram sequenciadas 613 espécies para o código de barras e 479 amostras ambientais por meio do DNA Ambiental — e que cada amostra pode indicar uma diversidade de animais.

“O foco principal é a utilização desses dados de genética e genômica para atender ou subsidiar processos institucionais do ICMBio voltados para a conservação da biodiversidade”, destacou Amely. Segundo ela, o uso do DNA Ambiental pelo GBB também serve para testar a técnica no Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora).

Genomas como registro do passado

Para além da conservação, os genomas podem ajudar no melhoramento genético. “O genoma é uma cápsula do tempo. Então, a partir do genoma eu consigo saber de onde um determinado indivíduo veio e se ele veio de uma população que era geneticamente diversificada ou não”, afirmou Aleixo.

Com essa informação, seria possível compreender como as espécies enfrentaram mudanças climáticas ao longo da história e, a partir disso, pensar em bases para o futuro. “A gente sabe que, por exemplo, há 20 mil anos teve a Era do Gelo, que também aconteceu no Brasil, mas de outra forma. São mudanças climáticas bastante significativas que impactaram o planeta todo. Queremos entender, via genoma, sobre o que aconteceu, quais populações sofreram, quais populações se adaptaram e por que se adaptaram. Será que essa adaptação que aconteceu no passado poderia ser usada para adaptar para as mudanças climáticas futuras? Nosso único guia é a cápsula do tempo do genoma”, disse Aleixo.

Ele lembrou que outros países já fazem esse tipo de trabalho. Na Europa, por exemplo, existe uma iniciativa chamada de resgate evolutivo com plantas, que identifica partes do genoma ligadas à adaptação — como resistência à seca — para orientar cruzamentos e espalhar essas características na espécie.

Depois de desenvolvido no bioma amazônico e concentrado nos ecossistemas marinho-costeiros, o GBB pretende ampliar ações para outros biomas brasileiros, como Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal. O resultado do projeto pode ser acessado por meio da plataforma GenRefBR.

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