Salvador (BA) – Original dos oceanos Índico e Pacífico, o peixe-leão fincou bandeira na costa brasileira e já figura entre os maiores riscos para a biodiversidade dos ecossistemas marinhos locais. O invasor encontrou águas sem predadores naturais por aqui, o que facilita a predação desenfreada de espécies nativas que habitam recifes e formações de corais.
Como forma de frear essa colonização indesejada, a culinária passou a ser vista como ferramenta de controle populacional. Em Salvador, no entanto, levar para a mesa um pescado conhecido pelo veneno gera tanto curiosidade quanto forte resistência e desconfiança entre os moradores.
A reticência tem fundamento, mas Francisco Kelmo, professor de ecologia e biodiversidade marinha do Instituto de Biologia da UFBA, aponta diferenças cruciais entre o invasor e o tradicional baiacu. Enquanto este último acumula toxinas por todo o organismo, o peixe-leão concentra o perigo apenas na estrutura externa.
O peixe-leão carrega peçonha nos espinhos das nadadeiras e só causa danos se houver inoculação direta na vítima. Já o baiacu espalha a substância tóxica pela pele, fígado, vísceras e até na musculatura aproveitada para alimentação, sem que o calor do cozimento consiga neutralizar o veneno.
A carne do peixe-leão apresenta boa qualidade nutricional, sabor agradável e ausência de toxinas na musculatura, desde que o eviscere e limpe com os devidos cuidados. O processo exige técnica apurada justamente pela presença dos espinhos dotados de glândulas peçonhentas.
Mesmo diante do potencial gastronômico, o pesquisador sugere prudência à população e aos cozinheiros locais.
A recomendação atual é evitar o consumo até que instituições de pesquisa finalizem os estudos definitivos sobre a segurança alimentar e órgãos oficiais de saúde liberem um aval regulatório para o aproveitamento comercial da espécie.
Enquanto o debate culinário avança nas mesas baianas, autoridades ambientais reforçam a necessidade de notificar avistamentos e capturas do animal aos órgãos competentes, subsidiando o mapeamento e o controle da expansão desse predador exótico no litoral.












