Vila Velha (ES) – O cenário das eleições gerais de outubro no Brasil ganha contornos de incerteza com o alerta de analistas de geopolítica e tecnologia sobre a possibilidade de ataques cibernéticos e manipulação coordenada. A tensão nas relações diplomáticas, marcada por tarifas comerciais e restrições a vistos de autoridades brasileiras, pavimenta, na visão de especialistas, um terreno propício para novas intervenções conduzidas pela Casa Branca, desta vez no ambiente virtual.
Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, destaca o caráter inédito de um memorando assinado pelo governo de Donald Trump na última quarta-feira (12). O documento formaliza uma nova doutrina de atuação ao autorizar parcerias com empresas privadas de tecnologia para a execução de operações que envolvem, explicitamente, a vigilância e o uso de efeitos cibernéticos. A medida permite o acesso a sistemas de informação sem a autorização dos proprietários, legitimando práticas que o pesquisador classifica como espionagem de alta complexidade.
A preocupação central reside na capacidade dessas estruturas em mapear perfis individuais para a criação de dossiês. Aragon argumenta que, diante desse panorama, a dependência brasileira de infraestrutura digital estrangeira torna o Estado vulnerável. Como todos os sistemas sensíveis do governo brasileiro operam sob o suporte de companhias dos EUA, a soberania dos dados torna-se um ponto de inflexão perigoso. O risco, segundo o especialista, não se restringe ao impulsionamento de conteúdos, mas assume uma natureza estrutural e sistêmica, muitas vezes operando de forma invisível, sem deixar rastros sobre a autoria das manobras.
A ofensiva também passa pela esfera diplomática. Em julho, o governo brasileiro negou vistos a assessores do secretário Marco Rubio, sob a suspeita de que pretendiam colocar em xeque a integridade do sistema eleitoral. Esse comportamento é lido por historiadores e analistas militares como parte de uma estratégia maior.
Euclides Vasconcelos, especialista em geopolítica, aponta que as bigtechs transcendem o papel de meras plataformas de interação. Ele as define como extensões de interesses estatais, capazes de canalizar opiniões e moldar o comportamento de recortes demográficos específicos com precisão cirúrgica. Como evidência dessa integração, Vasconcelos cita o recente movimento do Exército dos EUA, em junho de 2025, que incorporou executivos de empresas como Meta, OpenAI e Palantir à patente de tenentes-coronéis.
O precedente da crise migratória em Ceuta, enclave espanhol no continente africano, serve como estudo de caso. Naquela ocasião, a disseminação massiva de desinformação via redes sociais demonstrou a eficácia do controle de narrativas para provocar instabilidade social. Para o professor, a proximidade entre os proprietários dessas gigantes da tecnologia e o governo de Donald Trump é o indicativo de que tais empresas atuam como tentáculos dos interesses norte-americanos na região.
O Brasil, nesta equação, é visto como um obstáculo estratégico. A nova doutrina de segurança dos EUA, tornada pública no final de 2025, reforça a busca pela hegemonia continental. Em um vídeo divulgado pelo Departamento de Estado na última terça-feira (11), o tom foi direto: a liderança dos EUA sobre a América Latina não admite mais questionamentos. Para Washington, o processo eleitoral brasileiro funciona como uma peça-chave para a consolidação desse domínio regional.

































































































