Washington, Estados Unidos – Às vésperas de um pleito que definirá os rumos do Congresso, o humor do eleitorado norte-americano destoa dos números macroeconômicos. Embora o país apresente indicadores de solidez em diversos setores, a sensação nas ruas é de descontentamento, impulsionada por preços que se recusam a baixar. O legado econômico do governo Donald Trump tornou-se o centro do debate, com muitas críticas direcionadas às tarifas comerciais e aos efeitos da escalada do conflito com o Irã sobre o custo de vida.
O cenário, porém, é marcado por contrastes. De um lado, a taxa de desemprego permanece na casa dos 4,2%, um patamar de estabilidade inédito nos últimos cinco anos. Os pedidos de auxílio-desemprego estão em níveis mínimos que não eram vistos em quase seis décadas. Além disso, o mercado de ações tem sido um termômetro otimista, impulsionado por um setor de inteligência artificial que mantém o ânimo de investidores e de quem poupa para a aposentadoria.
Apesar desses ganhos, o choque de realidade ocorre no cotidiano. O impacto da inflação é onipresente, sentido diretamente no posto de gasolina, no pagamento das contas básicas e na alimentação. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, defende a eficácia das políticas tributárias e energéticas atuais, sustentando que tanto o comportamento das empresas quanto o dos consumidores permanecem resilientes. Dados recentes apontam um crescimento anualizado de 3,4% no último trimestre, amparado em grande medida pelos gastos de famílias de renda mais alta, beneficiadas pela valorização de ativos.
Contudo, rachaduras começam a surgir no otimismo oficial. Resultados financeiros recentes de gigantes como Amazon e Intel trouxeram incertezas quanto à sustentabilidade do boom de investimentos em IA. Para o cidadão comum, o problema é mais prático: desde o início de 2025, os salários cresceram em um ritmo que apenas acompanha a inflação, deixando o poder de compra estagnado.
O cenário é agravado pela política monetária. Para conter a escalada dos preços acima da meta de 2%, o Federal Reserve mantém uma postura rigorosa, elevando taxas de juros. Esse “remédio”, como define o chair Kevin Warsh, encarece o crédito e afeta setores cruciais, como o imobiliário. Com as hipotecas de 30 anos superando a barreira dos 7% e uma oferta escassa de moradias, o sonho da casa própria tornou-se, para muitos, uma realidade financeiramente inacessível.
Neste contexto, o eleitor vai às urnas em 3 de novembro com um olhar crítico sobre o desempenho do governo. Enquanto a Casa Branca celebra o crescimento, a percepção popular sobre a economia, fragilizada pelo aumento do custo de vida e pelo aperto nos empréstimos, domina o clima político.








