Rio de Janeiro (RJ) – A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conferiu, nesta quinta-feira (5), o título de doutor honoris causa à escritora Conceição Evaristo. O gesto marca um reencontro simbólico, já que a autora de obras fundamentais da literatura brasileira contemporânea cursou sua graduação na própria Faculdade de Letras da instituição.
A honraria reforça uma sequência de reconhecimentos acadêmicos recebidos pela intelectual recentemente. Em 2025, foi homenageada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já em 2024, a distinção partiu da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Durante a solenidade, o reitor Roberto Medronho enfatizou o percurso de Evaristo. Para ele, celebrar a trajetória da escritora é reconhecer a força transformadora da educação e a resistência de uma mulher negra que expandiu sua influência para além das fronteiras nacionais. A própria laureada, ao discursar, provocou uma reflexão sobre a abertura do ambiente universitário. Ela pontuou que, ao acolher mulheres negras e suas perspectivas como intelectuais, a academia não apenas presta uma homenagem, mas amplia seu próprio capital intelectual e justifica sua função social.
A produção literária de Evaristo — que abrange ficção, ensaios e pesquisas — consolidou-se como um pilar da cena contemporânea. Seu livro Olhos d’água, por exemplo, conquistou o terceiro lugar no Prêmio Jabuti de 2015, na categoria contos e crônicas, e alcançou leitores em cinco idiomas diferentes. O prestígio no mercado editorial também se traduziu em reconhecimento institucional: em 2019, a autora foi a personalidade literária escolhida pelo mesmo Prêmio Jabuti.
Além da entrega de livros, o impacto de Evaristo reside na teoria. Ela é a criadora do conceito de “escrevivência”, termo que funde escrita e vivência para descrever uma forma própria de narração. Essa base teórica sustenta sua militância constante pela igualdade racial e pelos direitos das mulheres.
Nascida em Belo Horizonte, a autora mantém o olhar voltado para as margens. Seu trabalho é reconhecido pelo incentivo permanente à produção literária nas periferias, priorizando a voz de autores negros e, com ênfase, de mulheres negras. Com oito obras publicadas, Evaristo não apenas ocupa o espaço da academia, mas o tensiona, forçando as instituições a repensarem o que constitui um lugar de produção de saber.










