Campinas (SP) – O que você quer ser quando crescer? Para Giovanna Macedo, professora em Campinas, interior de São Paulo, a pergunta clássica da infância ganhou contornos digitais. Em 2025, ela recorreu à inteligência artificial para projetar o futuro de seus 31 alunos do 4º ano. Ao transformar fotos das crianças em representações visuais de suas futuras profissões — de astronautas a jogadores de futebol —, a docente não apenas movimentou as redes sociais, mas tocou em um ponto central da educação contemporânea: a capacidade de fazer com que o estudante se veja como protagonista de um amanhã possível.
Giovanna, que leciona há oito anos, admite que sua aproximação com a tecnologia é intuitiva. Ela enxerga nas ferramentas digitais uma ponte para ampliar horizontes e fortalecer a autoestima de alunos que, muitas vezes, precisam de um empurrão para acreditar no próprio potencial. Para a educadora, a tecnologia é apenas um meio; o fim, inegociável, continua sendo o despertar da curiosidade.
No entanto, a transição da era do giz para o domínio dos algoritmos exige cautela. Kassula Correa, diretora-geral da Start Anglo Bilingual School, no Rio de Janeiro, alerta que a facilidade natural das crianças com telas não se traduz, automaticamente, em sabedoria. O aluno moderno, que recebe informação em milissegundos, frequentemente carece de discernimento para verificar fatos, identificar desinformação ou compreender as nuances da privacidade de dados.
A escola, mesmo diante da digitalização acelerada, não pode abdicar de sua função como núcleo de relações humanas. É nesse ambiente que se aprende a conviver com a frustração e a reconhecer as próprias capacidades. Kassula defende que a tecnologia deve servir ao processo pedagógico, respeitando a diversidade de ritmos que compõe qualquer turma. O professor, nesse cenário, deixa de ser um mero transmissor de conteúdo para se tornar um mediador de experiências.
Para Marcio Luiz Dias, doutorando em Educação e formador de docentes na rede pública do Distrito Federal, a rapidez das mudanças digitais impõe um desafio logístico às universidades: o currículo da formação inicial quase nunca acompanha a velocidade do software. Por isso, a formação continuada torna-se a espinha dorsal da prática docente atual. Em suas capacitações, o foco não é o uso mecânico da ferramenta, mas o letramento crítico e a intencionalidade pedagógica.
Além da inovação em sala, a inteligência artificial oferece uma vantagem prática imediata: a desobstrução da rotina. Ao automatizar tarefas burocráticas, como correções repetitivas e lançamentos operacionais, a tecnologia libera o tempo do professor para o que realmente importa — o planejamento de aulas e o acompanhamento individualizado de cada aluno. A agilidade na diversificação de exercícios, porém, depende do julgamento humano para garantir que a adaptação atenda às necessidades reais de aprendizado.
Em Taguatinga, Jaime Guilherme de Oliveira coloca isso em prática no ensino médio. Vindo do mercado corporativo, o docente utiliza a IA para criar jogos educativos, como o Arena ABNT, que desmistifica normas acadêmicas de forma lúdica. Para Jaime, o segredo está na pergunta certa. A ferramenta é potente, mas ela só funciona se o educador souber exatamente o porquê daquela atividade e para quem ela se destina. Sem essa sensibilidade humana, os resultados tendem a ser superficiais.
Enquanto as salas de aula se transformam, o Ministério da Educação prepara uma resolução inédita para balizar esse uso. O objetivo é estabelecer diretrizes que protejam a autonomia docente e garantam a segurança dos estudantes em escala nacional. Em paralelo, a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas avança, com 108.658 escolas já operando em níveis de conectividade adequados até julho deste ano. A tecnologia chegou para ficar, mas o desafio, como apontam os especialistas, permanece sendo o mesmo: transformar acesso em conhecimento profundo e crítico.












