Washington, Estados Unidos – Pela primeira vez na história, a dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões. O número, que dobrou desde 2017, revela um cenário pressionado por uma tríade de fatores: políticas de desoneração fiscal voltadas ao topo da pirâmide, o encarecimento dos combustíveis decorrente de conflitos no Oriente Médio e as tarifas de importação implementadas pelo governo de Donald Trump.
A fatura dos juros, por si só, tornou-se um dos principais motores desse aumento. Em um intervalo recente, o custo do serviço da dívida alcançou US$ 1,1 trilhão, superando em mais de duas vezes os dispêndios registrados em 2021, quando o país desembolsou US$ 419 bilhões. Paralelamente, o gasto militar mantém uma média próxima a US$ 1 trilhão anuais, drenando recursos significativos dos cofres públicos.
Especialistas observam que o chamado “risco Trump” introduz uma volatilidade pouco comum no mercado financeiro global. A postura de Washington em conflitos tarifários, como o enfrentado pelo Canadá, gera incertezas que afugentam investidores tradicionais e pressionam os títulos do Tesouro. Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor do Instituto de Economia da Unicamp, aponta que o mercado não questiona a solvência da dívida — afinal, o dólar permanece como a principal reserva global —, mas reage de forma defensiva à imprevisibilidade da política externa norte-americana.
Para o economista e historiador Pedro Faria, o valor nominal de US$ 40 trilhões carrega menos peso do que a estrutura tributária vigente. Ele argumenta que a insistência em reduzir impostos para as faixas mais ricas da população, sob a promessa de estimular o crescimento, tem se traduzido, na prática, em um déficit estrutural crônico. Em 2025, novas rodadas de cortes tributários elevaram a previsão de déficit em US$ 4,7 trilhões para a próxima década, simultaneamente a um corte de US$ 1 trilhão em verbas de saúde pública.
Essa disparidade fiscal é evidente na arrecadação. Enquanto países da OCDE operam com uma carga tributária média na casa dos 34% do PIB, os Estados Unidos permanecem estagnados em 25%. Com a receita sobre lucros despencando 23% apenas neste ano fiscal, a concentração de renda torna-se um efeito colateral direto. Os juros pagos pelo Tesouro, afinal, acabam remunerando majoritariamente os detentores dos títulos: bancos, fundos e as famílias mais abastadas.
A desconfiança internacional também começa a dar sinais de alerta. Governos e corporações ao redor do globo, incluindo Brasil e China, têm reduzido gradualmente sua exposição a títulos americanos. O receio de sanções ou de congelamento de ativos, decorrente de uma diplomacia vista como errática, leva bancos centrais a buscarem o ouro como porto seguro, em vez da tradicional segurança dos papéis do governo dos EUA.
Embora o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) tenha sido surpreendido pela velocidade do endividamento — a previsão original era atingir os US$ 40 trilhões apenas em 2027 —, não há consenso sobre um iminente colapso. Com cerca de 100% do PIB em dívida, o país está em um patamar similar ao registrado no final da Segunda Guerra Mundial. A estratégia da Casa Branca, conforme sinalizado pela Secretaria do Tesouro, envolve ampliar as operações de recompra de títulos a partir de 9 de setembro, uma tentativa de estabilizar o mercado diante da desconfiança latente sobre o futuro da maior economia do mundo.










