São Paulo (SP) – Embora a febre do Nilo Ocidental seja uma velha conhecida na África, onde circula há pelo menos 90 anos, a doença ainda é uma novidade pouco comum no cenário epidemiológico brasileiro. A confirmação de dois casos no estado de São Paulo — uma mulher de 34 anos, de Ribeirão Preto, e uma adolescente de 18 anos, de São José do Rio Preto — marca um momento inédito para a saúde pública estadual, mas não deve ser motivo para alarmismo.
Furtado da Costa, médico infectologista do Hospital das Clínicas da FMUSP, pondera que, apesar da gravidade latente e de um óbito registrado em Santa Catarina, a grande maioria dos pacientes apresenta quadros leves. A estatística joga a favor da tranquilidade: menos de 1% das infecções evoluem para as formas mais severas da doença.
O vírus causador da febre é um arbovírus, integrante da mesma linhagem de patógenos responsáveis pela dengue, zika e chikungunya. A transmissão segue um ciclo biológico bem definido: o mosquito do gênero Culex — conhecido popularmente como pernilongo ou muriçoca — atua como vetor ao picar aves infectadas, que servem como reservatórios naturais do vírus, e, posteriormente, transmitir o agente infeccioso ao ser humano.
A apresentação clínica é bastante variável. Cerca de 80% das pessoas picadas pelo vetor infectado sequer desenvolvem sintomas. Quando os sinais aparecem, o espectro é amplo: desde um mal-estar generalizado, febre, náuseas e dores musculares até quadros neurológicos alarmantes, como meningite, encefalite, convulsões ou rebaixamento do nível de consciência. É nessas situações críticas que o suporte hospitalar, frequentemente em unidades de terapia intensiva, torna-se imprescindível para a sobrevivência do paciente.
Atualmente, não há vacinas ou tratamentos antivirais específicos voltados ao combate do vírus do Nilo Ocidental. O manejo clínico é estritamente de suporte, focado na hidratação intravenosa e na mitigação dos sintomas, o que exige um diagnóstico preciso baseado na avaliação médica e no histórico de exposição em áreas de risco. A escassez de casos globais, quando comparada à escala epidêmica da dengue, desencoraja o investimento em pesquisas farmacológicas direcionadas para imunizantes.
No caso das pacientes diagnosticadas em São Paulo, o Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac está em campo para rastrear a origem da infecção. A paciente de Ribeirão Preto, que possui histórico de viagem recente à região amazônica, já se recuperou. Já a jovem de São José do Rio Preto permanece internada para acompanhamento médico.
Tatiana Lang D’Agostini, diretora do órgão, reforça que o trabalho conjunto entre as esferas municipal e estadual é o eixo central para conter possíveis focos de transmissão. Além da vigilância em humanos, o monitoramento deve ser estendido ao meio ambiente, observando especialmente a mortalidade atípica de aves em determinadas regiões. O Ministério da Saúde, por sua vez, mantém o monitoramento constante em todo o país, observando também um caso provável no Piauí, enquanto reforça que o contato casual com pássaros não é suficiente para contrair a infecção.












