São Paulo (SP) – Aos 81 anos, a militante e feminista Amelinha Teles faleceu nesta terça-feira, 15 de outubro. Sua trajetória é marcada por uma resistência que começou nas celas da ditadura e se estendeu pelas décadas seguintes, na construção da democracia e na defesa incansável dos direitos humanos.
O calvário de Amelinha começou em 28 de dezembro de 1972, quando foi detida e levada para a Operação Bandeirantes (Oban). Nas instalações do DOI-Codi de São Paulo, sob o comando do major Carlos Alberto Brilhante Ustra, ela enfrentou sessões brutais de tortura. O trauma ultrapassou as barreiras físicas: seus filhos, Edson e Janaína, então com apenas 4 e 5 anos, foram sequestrados e forçados a testemunhar o suplício dos pais no mesmo local. No mesmo período, seu marido, César Augusto Teles, e o colega de militância Carlos Nicolau Danielli também foram encarcerados, sendo que Amelinha presenciou o assassinato de Danielli.
A dor pessoal não a silenciou; transformou-se em pauta política. Ainda nos anos 1970, Amelinha integrou a equipe do Jornal Brasil Mulher, consolidando-se como uma das vozes mais ativas do feminismo brasileiro. Sua atuação foi decisiva na formulação da Lei Maria da Penha, onde trabalhou como advogada e formadora de Promotoras Legais Populares, deixando um legado estruturante para a proteção feminina no país.
Recentemente, Amelinha expandiu sua atuação para a investigação acadêmica sobre os desdobramentos do regime de exceção iniciado em 1964. Ela participou da pesquisa coordenada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) sobre a responsabilidade de empresas em violações de direitos humanos durante aquele período e foi entrevistada pela série Perdas e Danos, da EBC, reforçando que o país precisa encarar seu passado para salvaguardar o futuro.
Para Amelinha, a ideia de simplesmente “virar a página” da história era um equívoco perigoso. Ela defendia que o passado precisava ser lido e compreendido minuciosamente antes de qualquer tentativa de superação. A ativista alertava para o risco que a perda de figuras históricas representa para a memória democrática: cada militante que parte leva consigo um pouco da experiência acumulada na construção dos valores de liberdade. Sem essa continuidade, ela temia que a sociedade fosse reduzida, perdendo a capacidade de criar, de expandir ideias e, eventualmente, nutrindo o medo de exercer a própria autonomia.
Em nota, a Rede de Desenvolvimento Humano manifestou que, embora a companheira tenha falecido, o país não perde apenas uma militante, mas uma mulher cuja trajetória transformou a dor em resistência. Sua presença, segundo o coletivo, permanece viva em cada batalha travada por justiça e nas gerações de mulheres que encontram em sua história um norte para continuar sonhando e lutando.












