Brasília (DF) – A transformação social passa, inevitavelmente, pela presença de quem habita as bordas das metrópoles no centro das decisões. Com essa premissa, adolescentes e jovens do Distrito Federal e do entorno iniciaram nesta quarta-feira (12), Dia Internacional da Juventude, uma ofensiva para pautar o debate eleitoral visando o pleito de 2026. A campanha, intitulada Perifa nas Urnas, marca a entrega de uma carta-manifesto que exige políticas públicas desenhadas por quem sente, na prática, os gargalos do transporte, da saúde e da educação.
Sara Lisboa, geógrafa em formação e moradora de Ceilândia, a região administrativa mais populosa do DF, sintetiza a frustração comum a muitos: decisões tomadas em gabinetes refrigerados, distantes das filas de ônibus ou da precariedade das unidades de saúde. Para ela, a política precisa ser pensada por quem vivencia essa rotina. Ela argumenta que a juventude atual, munida de maior conectividade e informação, já não aceita ser coadjuvante e aponta que parlamentares e governantes têm à disposição diversos espaços — como centros acadêmicos e coletivos culturais — para ouvir o que as periferias têm a dizer para além dos períodos eleitorais.
Essa percepção é compartilhada por Victor Queiroz, fotógrafo e gestor público de 27 anos, residente no Paranoá. Ele defende que o voto deve ser compreendido como uma ferramenta de mudança estrutural, e não apenas um dever cíclico. O foco, segundo Queiroz, é superar a visão técnica e fria de quem analisa o território sem dialogar com a população, elaborando estratégias baseadas em suposições que raramente atingem a raiz dos problemas locais.
A iniciativa, articulada ao longo de dois anos em oficinas de formação, mobilizou mais de 150 jovens de diversas regiões, como Estrutural, Itapoã, Samambaia, Planaltina, Taguatinga e cidades goianas como Águas Lindas e Valparaíso. Dyarley Viana de Oliveira, assessora política focada em juventudes, ressalta que o projeto aposta em uma comunicação direta, de jovem para jovem, rompendo a barreira que afasta as novas gerações dos espaços de poder.
O documento entregue aos futuros candidatos aos cargos de governador, deputado distrital, deputado federal e senador é abrangente. Ele toca em feridas sensíveis como segurança pública, proteção social, trabalho, cultura e mobilidade urbana descentralizada. Um dos pontos centrais, porém, é o rigor técnico: o grupo exige transparência orçamentária. Após estudarem as finanças do Distrito Federal, os jovens passaram a cobrar clareza total, desde a formulação das verbas até sua execução. O manifesto pede que os dados públicos sejam obrigatoriamente segmentados por raça, cor, gênero, faixa etária e território, condição indispensável para que a sociedade civil consiga exercer o controle real sobre o que é feito com o dinheiro de todos.












