Paracatu (MG) – O sertão e o recôncavo baiano não são apenas cenários para Calila das Mercês; são, nas palavras da própria autora, suas primeiras escolas. Essa conexão profunda com a geografia interiorana baliza agora sua atuação como uma das curadoras da quarta edição do Festival Literário de Paracatu, município mineiro localizado a 500 quilômetros da capital Belo Horizonte. Ao lado de Sérgio Abranches e de Afonso Borges, idealizador do evento, ela desenha uma programação que busca o diálogo entre o pensamento brasileiro e a identidade local.
O tema desta edição, “Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo”, propõe uma intersecção intelectual entre o geógrafo Milton Santos, cujo centenário foi celebrado em maio, e a obra de João Guimarães Rosa, que há 70 anos apresentou ao mundo o épico Grande Sertão: Veredas. Para Calila, o desafio central do festival é romper a ideia de que o pensamento precisa, obrigatoriamente, ser irradiado dos grandes centros urbanos. Ela acredita que cidades como Paracatu não apenas consomem literatura, mas a produzem com uma identidade própria, sem a necessidade de validações externas.
A escritora, que possui experiências anteriores em eventos literários em cidades como Cachoeira, na Bahia, e Cavalcante, em Goiás, observa com cautela a expansão desses encontros. Ela defende que tais celebrações devem preservar sua autonomia, evitando transformar a literatura em palanque político ou em espaços dominados por visões externas que ignoram as particularidades de cada território. Entre os nomes convidados a debater esse Brasil profundo em Paracatu estão Mia Couto, Alê Santos, Bruna Lombardi, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Jeovanna Vieira, Paulliny Tort e Renato Nogueira.
Ainda este ano, Calila consolidou sua trajetória na ficção com o lançamento de Nódoa, seu primeiro romance, publicado pela Companhia das Letras em julho. O processo de escrita do livro foi, por definição, errante. Concluído entre viagens de ônibus, rodoviárias e sucessivas mudanças de residência, o texto reflete a transitoriedade de sua própria vida. Durante o percurso, a autora buscou conexões em quatro visitas ao rio São Francisco e no contato com o maior cajueiro do mundo, elementos que ajudaram a germinar a narrativa.
Nódoa é conduzido pelas vozes de Regina e Lurdes Maria, personagens que, embora em movimento constante, mantêm laços invisíveis entre si. Calila explorou a materialidade do texto — utilizando variações entre maiúsculas e minúsculas e abundantes espaços em branco — para traduzir a natureza sensorial de cada mulher, da que domina a escrita à que se comunica apenas pela oralidade, pelos gestos e pelo silêncio. Para a autora, o título do livro carrega o peso das memórias: marcas que, como uma mancha de dendê ou um suco derramado, insistem em permanecer, mantendo viva a presença de quem já partiu.
O 4º Festival Literário Internacional de Paracatu ocorre entre 26 e 30 de agosto de 2026, no Centro Histórico da cidade, com entrada gratuita.












