Rio de Janeiro (RJ) – Trazer à luz uma Europa negra, muitas vezes soterrada sob camadas de narrativas oficiais e silenciamentos históricos, é o objetivo central de Joaquim Arena. O escritor luso-cabo-verdiano, nascido na Ilha de São Vicente em 1964, utiliza o livro Debaixo da nossa pele, lançado em 2017, para rastrear a presença de africanos e seus descendentes no continente europeu. O trabalho é fruto de um garimpo paciente em arquivos e relatos de viagens por Portugal, revelando trajetórias humanas que o tempo insistiu em apagar.
Essa busca não é puramente acadêmica. Ela se entrelaça com a própria biografia do autor, filho de pai português e mãe cabo-verdiana. Com formação em Direito e um início de carreira no jornalismo em Lisboa, Arena construiu uma trajetória marcada pela circulação entre diferentes mundos. Atualmente radicado na cidade de Praia, em Cabo Verde, o escritor acumula seis romances traduzidos para diversos idiomas, incluindo Siríaco e Mister Charles, obra que lhe conferiu o Prémio Oceanos de Literatura em 2023.
Nesta quarta-feira (14), às 17h30, o público carioca terá a chance de conversar com o autor no Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). Sob a temática Romance histórico: onde a realidade encontra a ficção, o evento gratuito propõe uma reflexão sobre identidade, pertencimento e os ecos do colonialismo que ainda reverberam no presente. Para Arena, a ficção cumpre um papel fundamental ao ocupar as lacunas deixadas pela história tradicional. Ele descreve seu processo criativo como uma atração irresistível pelos vazios nos fatos, que ele preenche com personagens forjados na imaginação, mas alimentados por episódios verídicos.
A ponte entre as experiências de Cabo Verde e do Brasil é um ponto recorrente nas discussões promovidas pelo autor. Ele aponta que a circulação de pessoas, impulsionada por motivações econômicas, sociais e políticas, é uma constante na história moderna. Debaixo da nossa pele sintetiza esse movimento humano contínuo, que o escritor vê, ainda hoje, como um vetor de novas oportunidades de vida.
A relação de Arena com o Brasil é antiga e começou aos 12 anos, através das páginas de Jorge Amado. A literatura brasileira funcionou como uma janela singular para um universo que parecia, ao mesmo tempo, estranho e familiar. Além de Amado, nomes como Guimarães Rosa, José Lins do Rêgo e Graciliano Ramos foram pilares na formação do autor, oferecendo um espelho para as realidades das ex-colônias portuguesas. Em um cenário marcado pela aceleração digital, ele defende o clube de leitura como um reduto de resistência, um espaço onde o pacto sagrado entre autor e leitor ainda mantém viva a magia da invenção.












