Brasília (DF) – Quarenta anos após sumir dos acervos, o curta-metragem “Agora um Deus Dança em Mim”, dirigido por Adelia Sampaio, finalmente chega à tela grande na próxima segunda-feira, 9 de novembro. A exibição inédita marca a abertura da VIII Mostra Competitiva de Cinema Negro Adelia Sampaio, às 19h20, no Cine Brasília, em uma sessão que coloca lado a lado duas trajetórias fundamentais do audiovisual brasileiro em momentos distintos.
A partir do dia 10 e até 14 de novembro, as atividades se transferem para o Anfiteatro 10 da Universidade de Brasília (UnB). Ao todo, 40 produções entre curtas, médias e longas-metragens entram em cartaz, vindas do Distrito Federal, de 15 estados do país e de quatro nações estrangeiras: Mali, Burkina Faso, Senegal e Cuba.
Resgate histórico e homenagem póstuma
O resgate do trabalho inicial de Adelia só foi possível graças a uma restauração recente conduzida pela Cinemateca Brasileira. Estrelado pela bailarina Tatiana Cobbett em um solo, o curta utiliza a dança para discutir a escassez de espaços dedicados aos bailarinos no Brasil. Rever a própria obra depois de tanto tempo causou forte impacto na pioneira, que descreveu o reencontro com o início de sua carreira como uma emoção grandiosa e imensa.
Na mesma noite inaugural, o público assistirá a “Quase da Família” (2026), obra dirigida por Joyce Prado (1987-2025). A cineasta faleceu no ano passado sem ver o filme concluído, que retrata os embates históricos pelo reconhecimento e regulamentação da profissão de trabalhadora doméstica no Brasil. A temática atravessa o evento de forma intencional. A idealizadora e diretora da Mostra, Edileuza Penha de Souza — realizadora do documentário “Filhas de Lavadeira” —, ressalta que o debate se estende até o encerramento, quando será exibido “Aqui Não Entra Luz”, de Karol Maia, estabelecendo uma reverência direta às mulheres que possibilitaram novos caminhos para suas famílias.
Memórias de infância em livro
Além das telas, Adelia Sampaio apresentará outra dimensão de sua produção artística. Na terça-feira, 10 de novembro, às 16h, ela lança no Anfiteatro 10 da UnB o livro infantojuvenil “Voos e Sonhos de uma Borboleta”, no qual transforma passagens da infância em narrativa poética.
A trajetória da autora reflete marcas da história social do país. Nascida em Belo Horizonte, Adelia foi levada aos 7 anos para um abrigo em Santa Luzia do Rio das Velhas, em Minas Gerais — decisão tomada pela patroa de sua mãe, Guiomar, que trabalhava como empregada doméstica. Aos 12 anos, passou a morar com a irmã, meio pelo qual descobriu o cinema. O envolvimento com a área culminou, em 1984, no lançamento do filme “Amor Maldito”, trabalho que a consagrou como a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil.












