Brejetuba (ES) – Representantes de territórios ancestrais lançaram nesta quarta-feira (27), em São Paulo, a Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica. O ato aconteceu na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Dia Nacional da Mata Atlântica.
A aliança reúne povos indígenas, caiçaras, quilombolas, caboclos, marisqueiras, povos de terreiro e pescadores artesanais de várias partes do país. A proposta é representar e defender a Mata Atlântica, apontada como um dos biomas mais ameaçados do Brasil. Também está na pauta a garantia dos direitos territoriais dessas comunidades.
No manifesto lido durante o lançamento, os participantes afirmaram: “Somos povos e comunidades tradicionais, guardiãs e guardiões de saberes ancestrais que nos permitem cuidar de nossa mãe natureza, suas florestas, rios, lagoas e mares”.
Direitos e preservação caminham juntos
Em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa e moradora da Aldeia Rio Bonito, no Sertão de Itamambuca, em Ubatuba (SP), Ivanildes Kerexu, disse que a aliança nasce como um projeto de união. Para ela, o objetivo é reforçar a luta pelo território e também garantir acesso a políticas públicas.
“Precisamos fazer essa Aliança da Mata Atlântica para que a gente possa ter o direito de políticas públicas e, claro, também para a preservação ambiental”, afirmou. Ivanildes completou que a Mata Atlântica se manteve até hoje graças às comunidades tradicionais que vivem no bioma e resistem no local.
Para os povos indígenas, a Mata Atlântica tem um significado particular, segundo a coordenadora. Ela lembrou que a região incorpora “uma espiritualidade muito forte” e citou a crença Guarani de que se trata de um território “sem mal”.
Diálogo, denúncias e novas ameaças
Entre os presentes, a deputada federal Sonia Guajajara (PSOL-SP), ex-ministra dos Povos Indígenas, destacou o movimento como espaço de diálogo, denúncias e construção. Segundo ela, as rotinas de enfrentamento enfrentadas pelos povos nem sempre são compreendidas pelas estruturas legais, o que torna necessária a presença dessas vozes.
“Para nós é óbvio: o que para nós é o dia a dia de enfrentamento que a gente faz nem sempre é compreendido pelas estruturas legais. Por isso se fazem necessárias essas vozes todos os dias para que essa mensagem chegue em todos os lugares. E não só chegue, mas que seja compreendida”, disse durante o evento.
Guajajara também mencionou uma ameaça internacional ligada à exploração de terras raras e minerais críticos. Para ela, caso a atividade avance sem considerar direitos, salvaguardas e consulta livre, prévia e informada, as consequências tendem a se repetir, em referência ao que ocorre com a exploração do petróleo para os povos.
Rede de proteção e pressões sobre o bioma
A Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica foi criada como uma rede de proteção para um bioma descrito como berço comum da história e da biodiversidade brasileira. Primeiro a sofrer impactos da colonização, a Mata Atlântica hoje é pressionada por grandes empreendimentos e pela especulação imobiliária.
De acordo com os integrantes, o turismo exploratório — com destaque para a construção de novos resorts —, o uso de agrotóxicos e a exploração de petróleo e combustíveis fósseis também contribuem para a destruição do bioma.
Dados citados no encontro indicam que restam cerca de 12,4% da vegetação original da Mata Atlântica. Originalmente, o bioma cobria 15% do território brasileiro em 17 estados. Mesmo assim, a floresta abriga mais de 20 mil espécies de plantas e mais de 2 mil espécies de animais vertebrados, muitas delas exclusivas.
O bioma ainda tem papel direto na vida humana: responde pelo abastecimento de água de mais de 145 milhões de brasileiros, número que corresponde a cerca de 70% da população.
O que comunidades veem no território
Para José Wellington Fontes Nascimento, mais conhecido como Wellington Quilombola, a Mata Atlântica aparece como tema recorrente entre as comunidades tradicionais. Ele é coordenador do Movimento Quilombola de Sergipe, pesquisador e agora coordenador executivo da aliança. “É por conta da Mata Atlântica que nós temos o nosso de comer e o nosso modo de viver”, disse.
Wellington relatou que, em diferentes estados, as situações se repetem. Na comunidade Quilombo Porto d’Areia, por exemplo, ele afirmou que tem se tornado comum encontrar nas ruas animais como cobra, paca e tatu, enquanto seus habitats são destruídos. Com isso, procuram abrigo nas residências.
A intenção do movimento, segundo o líder quilombola, é chamar atenção para o papel dessas comunidades no manejo sustentável e na conservação ambiental, mas também propor mudanças políticas para barrar a exploração predatória. “A gente quer chamar atenção [para esse problema] e queremos sentar à mesa para conversar [com as autoridades] para tentar mudar essa situação”, afirmou à Agência Brasil.












