Comunidade São Domingos (PA) – Do alto de uma andirobe, com seus 30 ou 50 metros, os frutos maduros acabam no chão. A casca dura se abre em quatro partes e as sementes se espalham pelo terreno. É nesse intervalo — entre a queda e a próxima etapa da produção — que começa a rotina das Amélias da Amazônia, grupo de mulheres ribeirinhas que fabrica óleos para fins medicinais e cosméticos desde 2016.
Elas vivem na comunidade São Domingos, localizada dentro da Floresta Nacional do Tapajós, no Oeste do Pará. O trabalho segue o ritmo ditado pela natureza e pelos costumes locais, com etapas feitas à mão, do início ao fim. Nada parece encaixado para facilitar; ao contrário, a produção acompanha o tempo necessário para cada fase, inclusive quando o que está em jogo é a própria qualidade do óleo.
O processo começa com a coleta das sementes. O material tem características específicas: são angulares e arredondadas, têm cor de café e textura semelhante à cortiça. A partir daí, o caminho até o produto final leva, em média, três meses. Nesse intervalo entram etapas de higienização, cozimento, secagem e quebra da semente, seguidas pelo preparo da massa e pela decantação.
Marileide da Silva Monteiro descreve a origem do método como uma herança familiar. “Aprendemos essa técnica de tirar o óleo da andiroba com nossos avós e os nossos pais, que nos passaram essa cultura e tradição”, diz a ribeirinha. Para ela, o conhecimento não nasce de um manual: vem de quem já fazia, de quem repetiu, de quem acertou e corrigiu na prática.
Havia também um problema antes do empreendimento ganhar forma. Marileide conta que a maior parte das sementes se perdia. Algumas famílias até aproveitavam o material para fazer remédios, mas era pouco. A ideia de mudar esse destino não surgiu do nada: apareceu quando uma das irmãs teve uma proposta de uso comercial. “Uma irmã teve a ideia de fazer o óleo para vender e nós nos juntamos. Era uma forma de conseguir um recurso extra para casa e não ter que ficar trabalhando tanto na roça debaixo do sol”, complementa.
O empreendimento reúne 16 pessoas e tem liderança de três irmãs: além de Marileide, Marilene e Marcilene. O protagonismo delas influenciou a escolha do nome da marca. No senso comum, “Amélia” costuma ser lembrado como símbolo de mulher submissa ao marido, na referência à marcha carnavalesca composta em 1942 por Mário Lago e Ataulfo Alves. No dia a dia do grupo, a palavra ganha outro sentido — menos tolerância ao estereótipo e mais espaço para decisão própria.
As Amélias da Amazônia enfrentaram a desconfiança de parte dos homens da comunidade e seguiram com o projeto, mesmo quando isso exigia tarefas mais pesadas. Marilene Dias da Silva explica como a rotina mudou: “A gente estava acostumada a trabalhar em roça com o nosso pai. Plantando, fazendo farinha, cortando seringueira. Quando veio a ideia de começar o negócio dos cosméticos, tivemos que arrancar os tocos de árvores no machado, limpamos todo o terreno na enxada, fizemos uma horta e outras estruturas. Foi muito trabalho”.
Hoje, além dos óleos de andiroba e de copaíba, o grupo fabrica sabonetes, velas, incensos, cremes e repelentes, usando matérias-primas amazônicas. Para Marileide, a diferença aparece no cotidiano da família. “Com o dinheiro, a gente já consegue pagar uma escola para o meu filho. Também posso dar um calçado melhor para ele. Não dá para dizer que está suprindo tudo, mas já é um começo e os ganhos ajudam a família a passar o mês”, afirma.
O negócio também começa a ser preparado para a sucessão. Uma nova geração é chamada para aprender e administrar, com o protagonismo que as mulheres já consolidaram. É o caso de Silvia Gabrielly, de 23 anos, filha de Marileide. Ela divide o tempo entre o trabalho como agente ambiental no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a administração das redes sociais das Amélias. O plano de Silvia é investir em estudos e trazer novos saberes e tecnologias para a comunidade.
“Eu já fiz vários cursos na área ambiental e na área de turismo. Agora, estou fazendo uma graduação em tecnologia ambiental. Quero entender mais sobre as plantações, a produção dos produtos e a gestão do negócio. Também precisamos de mais conhecimentos para administrar e divulgar o trabalho”, diz. Enquanto o grupo segue na rotina de extração e beneficiamento, esse olhar para formação abre outra frente: ampliar capacidades sem romper a base construída com os antepassados.
Os óleos das Amélias não ficam apenas na comunidade São Domingos. Eles viram matéria-prima para a Mahá Biocosméticos, empresa idealizada pelas farmacêuticas Melissa Karen Lage e Bruna de Souza durante graduação na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). A especialização delas inclui produtos capilares, como xampus, condicionadores e máscaras de nutrição. A motivação também veio de uma necessidade pessoal de Melissa: havia poucas opções para cabelos cacheados, sobretudo produtos que tivessem efeito a longo prazo e tratamento real dos fios.
“Na época, quase não havia opções para cabelos cacheados, principalmente os que fizessem um efeito a longo prazo e que realmente tratassem dos fios. Eu iniciei os experimentos com o óleo da babosa, até que minhas orientadoras sugeriram os ativos da Amazônia. Então, decidimos usar óleos e manteigas daqui da região”, relata. A babosa (Aloe vera), de origem africana e árabe e produzida no Brasil principalmente no Sudeste, passou a dividir espaço com óleos de andiroba e castanha-do-pará, espécies nativas da Amazônia.
Para viabilizar o uso desses insumos, foi essencial estabelecer parcerias com comunidades tradicionais. Melissa resume a intenção de fortalecimento territorial: “Nós sempre quisemos fazer algo que beneficiasse todo o território. Quando as pessoas compram nossos produtos, estão fortalecendo as cadeias produtivas locais”. A preocupação com a floresta em pé também orienta o trabalho: a equipe das Amélias conheceu os laboratórios da Mahá, enquanto Melissa e Bruna ofereceram capacitação para o reaproveitamento dos resíduos da andiroba.
Mesmo com o foco regional, alguns itens precisam ser importados de fora para compor as fórmulas. Mentol, glicerina e essências, por exemplo, são comprados de empresas de São Paulo ou do Rio de Janeiro, assim como embalagens biodegradáveis. A Mahá, apesar de entraves logísticos, vem passando por expansão e comercializa produtos para todo o Brasil. O plano agora é aumentar o volume de vendas: houve parceria com a Bemol, grupo varejista de Manaus (AM), e o processo produtivo foi terceirizado. Hoje, a produção fica sob responsabilidade da Ekilibre da Amazônia, fábrica em Alter do Chão (PA).
Na prática, as farmacêuticas ampliam o tempo na parte criativa, manejando elementos naturais e insumos químicos, tubos de ensaio e equipamentos eletrônicos para desenvolver novas fórmulas. Melissa insiste na ideia de unir ciência e tradição sem reduzir uma coisa à outra. “Algumas pessoas acham que as coisas da Amazônia ainda são apenas artesanais. Essas coisas têm valor, mas também fazemos ciência. Estamos na universidade e desenvolvemos nossos produtos com todo o critério científico. Ao mesmo tempo, valorizamos as tradições da comunidade”, resume.
Esse encontro entre conhecimento e território aparece também na Oka Hub, incubadora de empresas de bioeconomia em Belterra (PA). Idealizada pela Colabora Lab, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a proposta é oferecer infraestrutura e capacitação, além de conectar pequenos negócios a outras instituições. A rede inclui a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), além das comunidades tradicionais.
Bruno Quick, diretor técnico do Sebrae Nacional, afirma que povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos acumulam saberes que ganham outra dimensão com a bioeconomia. “São conhecimentos sobre como usar, de modo sustentável, os recursos da região que, apesar de abundantes, não são inesgotáveis”, diz ele. Segundo os organizadores, 11 negócios são apoiados atualmente na Oka Hub, em um espaço descrito com o lema “onde a ciência encontra a floresta, onde ancestralidade vira inovação”.
O laboratório da Mahá fica na incubadora. A integração se estende ao Museu de Ciências da Amazônia (MuCA), instituição que reúne pesquisa e educação ambiental e que também opera com proximidade de comunidades tradicionais. Arthur Carvalho, responsável pelas áreas educacional e laboratorial, explica que o conhecimento científico se apoia no empírico e no tradicional: “O que torna o MuCA único é isso: estar próximo dessas comunidades, poder dialogar e aprender com elas”.
No fundo, o projeto que se desenha em Belterra e no Oeste do Pará traz uma escolha clara: ampliar investimentos e mobilizar o engajamento coletivo para que o potencial cultural, científico e econômico da região encontre meios de crescer. Arthur defende que ainda faltam reconhecimento e credibilidade para tecnologias desenvolvidas localmente. “As pessoas deveriam valorizar mais a região e apoiá-la para que cresça cada vez mais”, pede.




































































































