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Turismo comunitário no Tapajós protege territórios e tradições locais ao receber visitantes

Na Pousada do Mingote, em Alter do Chão, hospedagem e educação ambiental se misturam à cultura local

Por Redação / Diário da Nação
3 de julho de 2026
em Natureza
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Turismo comunitário no Tapajós protege territórios e tradições locais ao receber visitantes

📷 Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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Santarém (PA) – Do terraço de casa, Dórisson Borari e Maria Munduruku enxergam do Rio Tapajós ao Lago Verde, passando pela Ponta do Marataí e pela Ilha do Amor — a atração mais conhecida de Alter do Chão, vila do município de Santarém, no Oeste do Pará. Em vez de manter esse cenário restrito à família, eles decidiram transformar a experiência em hospedagem, com um modelo que reúne hospitalidade e proteção do território.

Criada em 1997, a Pousada do Mingote é apresentada como a mais antiga em atividade na região. Dórisson diz que o caminho foi seguir valorizando “as raízes” e aquilo que a natureza oferece, somando cultura, culinária e história. Ele relata ainda que a família preserva tradições de diferentes povos que habitam o local há tempos.

“Primeiro, havia os nômades. Depois, vieram outros povos como os Borari, que encontraram aqui um lugar abençoado, que supria tudo o que precisavam e decidiram ficar”, completa.

Para receber visitantes, a pousada fez mudanças estruturais e adotou elementos decorativos pensados para evidenciar tradições locais. Os objetos espalhados pelos corredores e áreas comuns contam essa proposta: entre eles está o Arco do Sairé, feito de cipó, com fitas coloridas e quatro cruzes. A estrutura simboliza o sincretismo das crenças indígenas e católicas e aparece na festa conhecida como Sairé ou Çairé, celebrada anualmente em setembro na vila.

Maria Munduruku reuniu boa parte dessas peças e se vê como guardiã da memória local. Ela diz que a ideia é que a pousada seja marcada por um conjunto de elementos ligados à cultura indígena, sem excesso, apenas o necessário para contar a história, falar da tradição e evidenciar o orgulho. Maria também é diretora da Escola Indígena Borari Professor Antônio de Sousa Pedroso.

Quando o assunto passa para os limites do acolhimento, a família reforça que generosidade não significa passividade. Dórisson conta que, em pouco tempo, algumas pessoas chegaram com propostas para pegar uma área destinada à educação ambiental e transformá-la em condomínio de luxo, com hotel na margem do lago, incluindo previsão de esgoto lançado na água e necessidade de derrubar parte da floresta.

Segundo ele, a área foi embargada e retomada. “A ideia é trabalhar ela novamente para receber um espaço de educação: escola, ensino médio e universidade indígenas”, acrescenta.

O engajamento coletivo não fica só em Alter do Chão. Em janeiro deste ano, Dórisson se juntou a quase 2 mil indígenas de diferentes povos do Baixo Tapajós e ocupou o terminal portuário da multinacional Cargill, em Santarém. A mobilização durou mais de um mês e teve como principal reivindicação a revogação do Decreto Federal nº 12.600/2025, que incluiu rios amazônicos — entre eles Tapajós, Madeira e Tocantins — no Programa Nacional de Desestatização.

O grupo argumentava que a proposta abriria caminho para práticas predatórias, como dragagem intensiva do rio Tapajós, ampliação da hidrovia para escoamento de grãos e aumento da pressão do agronegócio, com impactos ambientais e territoriais sobre povos indígenas e comunidades ribeirinhas. Depois de mais de um mês de mobilização, o governo federal anunciou a revogação do decreto.

“Muitos só conseguem pensar no lucro do agronegócio, não conseguem ver o valor que tem o turismo na Amazônia. A natureza é muito maior do que o lucro. Embaixo dos nossos pés está um aquífero considerado o maior do mundo”, afirma Dórisson. Ele também defende que os povos locais funcionam como guardiões: “Se devastarem rio e floresta, vão destruir nossas maiores riquezas”.

A hospedagem de Maria e Dórisson se encaixa na categoria Turismo de Base Comunitária (TBC), com gestão protagonizada pelos moradores, sem exploração externa e com redução de impactos ambientais e sociais negativos. A vila, pequena — com cerca de 3,6 mil habitantes, segundo o Censo 2022 —, existe oficialmente como distrito desde o século 18 e fica próxima de três áreas naturais protegidas: Área de Proteção Ambiental Alter do Chão, Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns e Floresta Nacional do Tapajós.

A procura cresceu. Dados divulgados pela prefeitura de Santarém apontam que o município recebeu 312 mil visitantes em 2025, 15% a mais do que em 2024, com movimentação econômica estimada em R$ 202 milhões. Alter do Chão é descrito como o principal destino turístico da região.

Em Piquiatuba, dentro da Floresta Nacional do Tapajós, outro exemplo de renda comunitária é a Casa do Eltom. Criado em 2018 por Eltom John Vasconcelos, o espaço começou improvisado, na casa da família, quando os visitantes paravam e perguntavam: “Tem comida?”. Com o tempo, passou a combinar gastronomia regional e hospedagem, além de passeios de lancha, trilhas, oficinas culturais e atividades ligadas aos saberes tradicionais amazônicos.

Eltom resume a mudança ao perceber que era possível construir qualidade de vida sem sair da comunidade. “Antes, meu pensamento era ir para a cidade grande. Depois que eu comecei a ver que aqui a gente tem tudo, consegue sobreviver com qualidade de vida e em harmonia com a floresta, aí eu mudei de ideia e comecei a ganhar dinheiro”, explica.

O turismo também puxa trabalhadores locais, como Davi Sóstenes, condutor de lancha. Ele diz que a região mudou: depois da pandemia de Covid, mais pessoas passaram a viajar no Brasil, buscando conhecer mais o país.

Há ainda a trilha conduzida por Joacy Rodrigues, há 20 anos apresentando usos medicinais, alimentícios e culturais das espécies amazônicas. No caminho, ele mostra folhas de curuá para cobertura de acampamentos, a tapiba, formiga usada como repelente natural, e a muúba, árvore que fornece pigmentos para tintas, corantes naturais e pintura corporal. “Gosto muito de compartilhar esse conhecimento que tenho e explicar todas as coisas que sei para os visitantes que vêm aqui. É muito bom trabalhar na floresta”, afirma Joacy.

Tags: Alter do Chãocasa,cultura indígenadórisson borarimaria mundurukuPreservação Ambientalreceber visitantesSantarémTapajóstapajós protegeterraçoterritóriostradições locaisTurismo Comunitário
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