Bahia (BA) – O medo que paira sobre a família da ialorixá Mãe Bernadete interrompeu um projeto político que buscava levar as demandas quilombolas ao Congresso Nacional. Jurandy Pacífico, único filho vivo da liderança assassinada, formalizou sua desistência da candidatura a deputado federal pela Bahia. A decisão, tomada após intensas conversas com familiares e integrantes do movimento social, é o capítulo mais recente de um histórico marcado pela violência que já vitimou também seu irmão, Binho do Quilombo.
Em carta enviada à Justiça Eleitoral, Jurandy descreveu o movimento como uma escolha dolorosa, porém necessária. O peso de ser um sobrevivente em um contexto de hostilidade constante forçou o recuo. A estratégia eleitoral, que pretendia transformar as condições de vida das comunidades tradicionais baianas, deu lugar à prioridade absoluta pela preservação da vida. O candidato, que havia planejado percorrer o estado para propagar sua plataforma, admitiu que a proteção da sua integridade física tornou-se incompatível com o ritmo das agendas políticas.
Apesar de retirar o nome da disputa, Jurandy reforçou que o abandono do pleito não significa o fim de suas convicções. Em pronunciamento oficial, ele ressaltou que a luta por segurança e dignidade permanece intacta. O recuo, segundo ele, é uma manobra estratégica: o sábio entende o momento de dar um passo atrás para, futuramente, avançar com maior firmeza. A ideia é que o legado da família continue vivo, ainda que fora dos holofotes de uma campanha formal.
O impacto da desistência reverberou nos escalões do governo estadual. Felipe Freitas, titular da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, manifestou preocupação diante do cenário. Para o secretário, o caso expõe a fragilidade enfrentada por defensores de direitos humanos, que se veem forçados a abdicar do direito à participação política para garantir a própria sobrevivência. Ele recordou que a Polícia Militar baiana mantém esquemas de proteção voltados a Jurandy e ao neto de Mãe Bernadete desde o assassinato da líder quilombola, há três anos.
A percepção de que a exposição pública durante o período eleitoral poderia elevar os riscos a níveis incontroláveis foi determinante. Jurandy explicou que o aconselhamento recebido de aliados e companheiros de movimento foi unânime: continuar na corrida eleitoral seria ignorar perigos concretos. A trajetória do filho de Mãe Bernadete, embora interrompida nas urnas, deixa evidente a tensão enfrentada por lideranças de comunidades tradicionais na Bahia.
Enquanto o processo de retirada é avaliado pelos tribunais, o ex-candidato sustenta que princípios e ideais seguem inalterados. O desfecho desta curta jornada política sublinha um dilema enfrentado por quem defende direitos básicos em zonas de conflito: a dificuldade de exercer a cidadania quando a própria existência é vista como um alvo.





































































































