Rio de Janeiro (RJ) – O litoral do Rio de Janeiro enfrenta um desafio silencioso, mas persistente. Pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) mapearam, ao longo de quatro décadas, uma transformação preocupante na paisagem do estado: mais de um quarto de sua zona costeira apresenta sinais claros de instabilidade. O estudo, que é o primeiro do gênero a sistematizar o Inventário da Degradação do Solo na região, coloca em xeque a ocupação do território e o manejo de recursos naturais.
O monitoramento abrangeu uma extensão territorial de 22 mil km². O recorte geográfico é vasto e diverso, englobando municípios desde Búzios, no norte, até as cidades que compõem a Costa Verde, como Itaguaí, Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty, além de áreas como Maricá e Cachoeiras de Macacu. A magnitude da análise permite entender como diferentes formas de uso do solo impactam ecossistemas sensíveis.
O alerta principal recai sobre o trecho entre Maricá e São Francisco de Itabapoana. É ali que a degradação se torna mais aguda. Das mais de 2.400 km² de terras impactadas negativamente, cerca de 1.916 km² exigem ações imediatas de recuperação ambiental. O diagnóstico aponta que o desmatamento, impulsionado pela expansão da pecuária e pelo cultivo de café, transformou o solo e retirou sua capacidade de regeneração natural.
Fábio Ferreira, professor do departamento de Análise Geoambiental da UFF, chama a atenção para o colapso silencioso das áreas úmidas e manguezais. Esses ambientes, essenciais para a proteção natural da costa contra fenômenos climáticos, perderam vigor. A erosão constante, agravada por um turismo por vezes desordenado e recorrentes focos de incêndio, acelera um ciclo de destruição que pode ser irreversível caso não haja intervenção.
Existe um temor real de que o desequilíbrio alcance os chamados hotspots, pontos críticos de biodiversidade que já são naturalmente frágeis. A perda de camadas férteis do solo e o assoreamento de rios são os sintomas mais imediatos deste cenário. Segundo Ferreira, o caminho para conter o avanço dessas perdas exige uma estratégia bifronte: agir para recuperar o que foi danificado e implementar políticas preventivas rigorosas que impeçam a continuidade desses danos.
O propósito central do levantamento não é apenas registrar o passivo ambiental, mas fornecer munição técnica para que prefeituras reformulem seus planos diretores. O objetivo é que o crescimento urbano, inevitável, possa ser direcionado por dados concretos, garantindo que a ocupação do solo ocorra em áreas onde a segurança ambiental seja minimamente preservada, evitando que o desenvolvimento comprometa a sustentabilidade da região a longo prazo.
































































































