Iúna (ES) – O mercado de pescados no Nordeste, um dos motores econômicos da região, tornou-se cenário de um esquema milionário que burlava regras sanitárias e ambientais para abastecer o mercado internacional. Nesta sexta-feira, uma ação integrada entre diferentes órgãos públicos começou a desmantelar uma estrutura criminosa suspeita de movimentar mais de R$ 300 milhões nos últimos cinco anos por meio da exportação ilegal de lagostas.
Batizada de Operação Locusta, a ofensiva mobilizou equipes para cumprir seis mandados de busca e apreensão. As ordens judiciais foram executadas em endereços localizados nos estados do Ceará e de Pernambuco, pontos estratégicos para a cadeia produtiva e de logística desse tipo de crustáceo.
A rota clandestina para a Ásia
O ponto de partida para as investigações foi uma fiscalização de rotina conduzida por agentes do Ministério da Agricultura e Pecuária. Durante as inspeções, o corpo técnico identificou uma desconexão grave nos registros aduaneiros: uma empresa brasileira enviava lagostas vivas para a China, mesmo sem possuir a credencial exigida pelo governo de Pequim para esse tipo de comércio exterior.
Para contornar o bloqueio oficial e colocar o produto em território chinês, os responsáveis pela fraude recorriam a um artifício simples, porém altamente prejudicial à credibilidade das exportações nacionais. A firma investigada utilizava o selo de certificação e a identidade de uma concorrente que estava devidamente autorizada a comercializar com o mercado asiático. Dessa forma, a mercadoria irregular recebia uma roupagem de legalidade para passar pela alfândega.
Crimes ambientais e sanitários
As suspeitas levantadas pela Receita Federal sugerem que o esquema contava com a colaboração ativa entre as empresas envolvidas. Mas o problema aduaneiro é apenas a ponta do iceberg. Há fortes indícios de que as lagostas enviadas ao exterior eram obtidas em total desacordo com as normas ambientais e de higiene. A rede de fornecimento incluía a compra de crustáceos capturados por pescadores que não possuíam licença oficial ou que faziam uso de equipamentos de pesca terminantemente proibidos pela legislação brasileira.
A gravidade da situação exigiu uma resposta coordenada. Além do Ministério da Agricultura e Pecuária e da Receita Federal, participam diretamente das investigações e do cumprimento das ordens judiciais a Polícia Federal, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Ministério Público Federal. O objetivo do grupo é estancar o dano ambiental e tributário causado pelo comércio clandestino.
A captura de lagostas figura historicamente como uma das principais forças econômicas e sociais do litoral nordestino, sustentando milhares de famílias que dependem da pesca artesanal. O Ceará lidera a produção nacional do crustáceo, o que explica a concentração das buscas no estado e o impacto que fraudes desse porte geram na imagem do setor lá fora.












